Plataformas cripto offshore permitem que criminosos evadam supervisão, alerta FATF

Plataformas cripto offshore permitem que criminosos evadam supervisão, alerta FATF
Rony Roy
12 de mar. de 2026, 12:08 PM
  • A FATF afirma que provedores de serviços cripto offshore exploram lacunas regulatórias.
  • Estudo constatou que exchanges cripto offshore frequentemente ajudam a lavar fundos ilícitos.
  • O relatório pede regras de licenciamento mais rígidas para provedores cripto offshore.

O Financial Action Task Force advertiu que plataformas cripto que operam offshore estão criando pontos cegos para os reguladores, permitindo que criminosos explorem lacunas na supervisão global para movimentar fundos ilícitos e evadir sanções.

Em um novo relatório intitulado Entendendo e Mitigando os Riscos dos Prestadores de Serviços de Ativos Virtuais Offshore, o organismo global de combate à lavagem de dinheiro disse que muitas empresas cripto offshore estruturam intencionalmente suas operações de forma a colocá‑las além do alcance efetivo dos reguladores.

Segundo a FATF, essas entidades frequentemente se aproveitam das diferenças nos enquadramentos regulatórios entre jurisdições, dificultando que as autoridades rastreiem a atividade ou apliquem regras de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo através das fronteiras.

“Como consequência, a cooperação internacional efetiva pode não ser possível, inclusive com o supervisor do oVASP relevante, limitando assim a eficácia das medidas domésticas de mitigação de risco”, afirmou o relatório.

Lacunas regulatórias

Uma das conclusões centrais do relatório é o ritmo desigual de adoção regulatória entre os países. 

Menos da metade das jurisdições pesquisadas, cerca de 46%, implementaram uma abordagem baseada na atividade para a supervisão de criptoativos.

Nesse modelo, os reguladores supervisionam empresas com base nos serviços que oferecem a usuários domésticos, em vez de onde a empresa está incorporada. 

Sem ela, as autoridades frequentemente monitoram apenas empresas fisicamente localizadas em seu território, deixando plataformas offshore livres para atender usuários locais sem licenciamento ou verificações de conformidade.

Essa lacuna regulatória, advertiu a FATF, cria um ambiente fértil para crimes financeiros.

Investigadores observaram como recursos ilícitos provenientes de golpes e operações de fraude são encaminhados por plataformas cripto offshore antes de serem dispersos por múltiplos endereços ou repassados por camadas de carteiras intermediárias. 

As transações também podem ser movimentadas entre diferentes blockchains ou por pontes cross-chain para obscurecer ainda mais o rastro.

Outra preocupação envolve as chamadas relações aninhadas, em que exchanges offshore sem licença acessam o sistema financeiro global indiretamente ao abrir contas em empresas cripto licenciadas enquanto se apresentam como usuários de varejo comuns. 

Esses arranjos permitem que negócios offshore movimentem fundos por infraestrutura regulada enquanto mascaram sua identidade real.

Apelos por supervisão mais rigorosa

Para fechar essas lacunas, a FATF instou os governos a reforçarem a supervisão de plataformas cripto offshore que atendem seus residentes.

O órgão recomendou que os países exijam que esses provedores se registrem ou obtenham licenças se oferecerem serviços dentro de uma jurisdição, independentemente de onde a empresa tenha sua sede. 

Também foram incentivadas as autoridades a impor penalidades a plataformas não conformes e a estabelecer forças-tarefa interagências para coordenar investigações e supervisão.

Maior cooperação entre unidades de inteligência financeira e reguladores transfronteiriços também será essencial, disse a FATF, dada a velocidade com que as transações de ativos virtuais se movem entre jurisdições.

“Exorto todos os países e o setor privado a agirem com base nas boas práticas que identificamos – como os ativos virtuais atravessam fronteiras em segundos, conformidade rígida, supervisão e cooperação internacional são essenciais para enfrentar esses riscos", disse a presidente da FATF, Elisa de Anda Madrazo, em um comunicado.

Esta orientação recente segue um relatório separado da FATF publicado no início deste mês sobre stablecoins e carteiras sem custódia.

Plataformas cripto offshore sob escrutínio

O alerta da FATF surge enquanto reguladores em várias jurisdições reconsideram como as plataformas cripto offshore devem ser supervisionadas.

Nos Estados Unidos, a Commodity Futures Trading Commission disse no ano passado que estava avaliando se seu antigo arcabouço Foreign Boards of Trade poderia ser estendido a exchanges de ativos digitais que operam fora do país.

Sob a proposta, clientes americanos poderiam potencialmente acessar certas plataformas de negociação internacionais se essas venues operarem sob padrões regulatórios comparáveis às regras americanas.