Invezz

Venezuela à beira do abismo: por que 10 de janeiro é crucial para seu futuro

Venezuela à beira do abismo: por que 10 de janeiro é crucial para seu futuro
Noris Soto
10 de jan. de 2025, 12:27 PM
  • Maduro reivindica vitória em meio a eleições contestadas; líder da oposição González ganha apoio internacional.
  • O crescimento do PIB é limitado a 5%; a inflação de 60% aprofunda a pobreza e derruba os padrões de vida.
  • Sanções e a saída de empresas petrolíferas podem reduzir pela metade a produção, custando US$ 12 bilhões por ano.

O dia 10 de janeiro é um dia crucial na Venezuela, pois marca o início de um novo mandato presidencial.

No entanto, o problema é o fato controverso que as eleições de 28 de julho trouxeram à tona, em que o presidente Nicolás Maduro se declarou vencedor sem nenhuma prova.

Pelo contrário, o candidato da oposição, Edmundo González, anunciou-se vencedor, provando isso com a ajuda de registros eleitorais de testemunhas das seções eleitorais e, assim, obtendo o apoio e o reconhecimento da comunidade internacional, como a União Europeia, a Argentina, o Chile e a maior parte da América Latina.

Examinaremos diferentes cenários para a Venezuela em 2025, dependendo de como o cenário político se desenvolver.

Quais são os cenários econômicos para a Venezuela em 2025?

O economista venezuelano Aldo Contreras fez uma análise profunda das perspectivas econômicas da Venezuela, avaliando dois cenários possíveis até 2025.

Ele disse ao Invezz que se Nicolás Maduro permanecer no poder, o país verá "crescimento muito exíguo", com um aumento econômico de cerca de 4% a 5%.

Embora esse aumento nominal possa elevar o Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de US$ 106 bilhões para US$ 110 bilhões, é fundamental compreender a surpreendente verdade de que a economia da Venezuela entrou em colapso em aproximadamente 75% em relação ao seu pico anterior de US$ 500 bilhões.


Nesse ambiente difícil, Contreras espera que a inflação chegue a 60% durante a presidência de Maduro, piorando ainda mais a situação econômica da Venezuela.

Ele alerta que "com a chegada de Donald Trump à presidência em 20 de janeiro, a probabilidade de intensificação das sanções econômicas pode impactar significativamente a produção de petróleo", que pode cair drasticamente, resultando em escassez aguda de gasolina e redução das receitas fiscais do estado.

Essa condição ameaça impedir qualquer possível recuperação, resultando em menores receitas em moeda estrangeira e uma taxa de câmbio em queda, o que pode agravar a crise do custo de vida para muitos venezuelanos.

Contreras enfatiza o significado humanitário dessas questões econômicas, afirmando que cerca de "53% da população vive em extrema pobreza", que é definida como sobreviver com menos de US$ 1,25 por dia.

Apesar do aumento significativo da receita tributária — de US$ 6 bilhões em 2023 para US$ 12 bilhões em 2024 —, isso não se traduziu em melhores condições de vida ou aumentos salariais.

Contreras acredita que, com muitos moradores ganhando uma média alarmante de US$ 3 por mês, melhorias urgentes são necessárias.

Ele acrescenta que, sem "instituições sólidas e um contexto econômico internacional favorável", as perspectivas da Venezuela em 2025 são sombrias, enfatizando a necessidade crítica de estabilidade e governança para criar uma verdadeira recuperação econômica e bem-estar social.

Possíveis perdas de receita petrolífera da Venezuela com a permanência de Maduro no poder

Contreras também afirma que a possibilidade de Nicolás Maduro ainda estar no poder fará com que a Venezuela perca pelo menos US$ 12 bilhões por ano em receitas de petróleo.

Isso é especialmente previsível devido à esperada retirada de grandes empresas petrolíferas como Chevron, Repsol e Eni, que têm sido atores cruciais no setor petrolífero venezuelano.

A perspectiva de aumento das penalidades pode levar à saída das empresas, o que, por sua vez, pioraria a situação econômica.

No caso de essas empresas saírem, a produção de petróleo da Venezuela poderia cair de 1 milhão de barris por dia para o mínimo de 500 mil barris por dia.

Essa notável redução na produção não só interferiria na extração de petróleo, como também causaria sérios problemas para a renda do governo.

O impensável declínio de US$ 12 bilhões nas receitas do petróleo seria um golpe crítico para a situação financeira do estado, causando problemas ainda mais profundos em uma economia que já está sob imensa pressão.

Quem estará disposto a fazer negócios com a Venezuela se Maduro permanecer?

Contreras também explicou o potencial de negócios com a Venezuela se Maduro permanecer no poder e especificou que estados vizinhos como a Colômbia estão acompanhando o presidente Gustavo Petro, que está navegando por um caminho estreito para equilibrar relações diplomáticas responsivas e evitar/ocultar fechamentos de fronteiras.

Da mesma forma, o Brasil e o México estão seguindo os exemplos de cautela, demonstrando uma abordagem cuidadosamente equilibrada nas relações com a Venezuela.

Ele acredita que países como Rússia, Irã, Turquia e Índia também poderiam estabelecer negócios com a Venezuela, ao lado da China, que é o primeiro elo na cadeia de transações de importação do país.

No entanto, Contreras enfatiza os desafios que a Venezuela enfrenta em sua economia, principalmente a falta de financiamento do exterior, dívidas governamentais e os problemas na emissão de novos títulos.

Essas questões impedem seriamente a tendência da Venezuela de ser uma economia aberta, restringindo-a de se unir efetivamente a possíveis parceiros internacionais.

A presença de dificuldades econômicas não apenas levanta questões, mas também restringe as possibilidades de parcerias comerciais que podem ser perseguidas de forma realista na situação atual.

Possíveis resultados da ascensão do líder da oposição Edmundo González ao poder

Se Edmundo González assumisse a liderança da Venezuela, especula-se que a nação poderia encontrar um aumento extraordinário, chegando a 50% ou mais, em seu Produto Interno Bruto (PIB).

O economista Aldo Contreras observou que esse crescimento seria impulsionado principalmente pela colaboração de organizações financeiras internacionais, particularmente o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.

Ele ressaltou que a recuperação de ativos nacionais considerados perdidos, cerca de US$ 700 bilhões, é de suma importância para a recuperação da economia.

O afluxo de investimentos estrangeiros, acompanhado de baixo risco para o país, poderia realmente colocar a economia em uma base sólida e levar a um ambiente onde um crescimento substancial do PIB seja possível.

Além disso, a administração de Gonzalez pode ser marcada por medidas mais rigorosas para lidar com a inflação, o que pode dar origem a uma economia de dupla moeda.

Aldo Contreras acredita que o retorno de um setor bancário forte e a melhoria das facilidades de crédito seriam um marco para a estabilidade econômica.

À medida que a economia se desenvolve, a taxa de disseminação de mão de obra qualificada pode preencher a lacuna enviando trabalhadores de outros países para participar da construção da infraestrutura nacional, incluindo a pavimentação de estradas, aeroportos, portos marítimos e instituições educacionais.

Contreras observou que a meta moderada de inflação garantirá o financiamento necessário para a recuperação da economia.

O iminente isolamento da Venezuela

Em entrevista à Invezz, o analista político Pablo Quintero previu um reconhecimento gradual e até então desconhecido do governo Maduro pela comunidade internacional após os eventos previstos para 10 de janeiro.

Ele levanta isso para fazer um paralelo com a situação de 2019 e enfatiza que os países vão navegar mais em seus relacionamentos diplomáticos com a Venezuela, com base nos interesses de cada nação.

Quintero deixa claro que tal transformação equivalerá a um grande impacto nas relações comerciais, especialmente no comércio da Colômbia com a Venezuela.

Ele menciona a consequência já prevista da ativação da fronteira em Cúcuta, um importante ponto de encontro para o comércio transfronteiriço, alegando que a tendência de mercadorias também provavelmente será interrompida.

Ao abordar o aspecto mais amplo dessa posição internacional, Quintero postula que tal onda de não reconhecimento pode criar pressões diplomáticas intensas e até mesmo levar ao isolamento econômico da Venezuela, reduzindo assim seu potencial para investimentos externos e atividades bancárias.

Ele fala sobre o tipo de sanções impostas, dizendo: O chamado excesso de conformidade revelará que a implementação será como a sofrida nos tempos passados, como em 2017 e 2019.

Quintero sugere que a incapacidade do governo de mostrar os atos que impediriam o isolamento pode levar à condição autoimposta de marginalização.

Quanto ao ambiente interno, Quintero registra uma observação preocupante sobre as consequências sociais desse isolamento internacional.

Ele prevê que um conhecido das relações internacionais irá piorar na mente das pessoas, que se perguntarão em quem acreditar no próximo processo eleitoral, alcançando assim mais niilismo social.

O descontentamento pode muito bem ser o motivo da grande emigração, especialmente para os países vizinhos do Brasil e da Colômbia, que são os principais países de destino dos cidadãos venezuelanos que fogem.

Ele ressalta que, com números entre 2 milhões e 5 milhões de pessoas, a crise humanitária tomaria um rumo grave com as constantes perturbações políticas e econômicas que o país está enfrentando.

O que o futuro reserva para a oposição venezuelana?

Pablo Quintero, um analista político, acredita que as perspectivas da oposição venezuelana de obter apoio da comunidade internacional estão muito limitadas.

Desde 2017, o cenário mundial em relação à Venezuela tem sido um processo de mudança e repetição, do tipo ioiô, especificamente, e foi majoritariamente afetado pelos parâmetros projetados por Juan Guaidó, que por sua vez abstraíram e embaçaram o foco deste assunto em todo o planeta.

Naquela época, a Organização dos Estados Americanos (OEA), as Nações Unidas e o governo dos EUA tentaram anular Maduro e apoiar Juan Guaidó, mas, na verdade, as organizações listadas não obtiveram bons resultados em 2019.

Tendo mencionado o contexto histórico, Quintero argumenta que a cautela será mais rigorosa por parte da comunidade internacional no futuro, devido ao fato de que diferentes conflitos urgentes e crises econômicas e geopolíticas atrairão a atenção global, enquanto a Venezuela não será a única questão de preocupação.

Atualmente, Quintero aponta a necessidade de uma mudança na política dos EUA. Ele menciona em particular que a tensão no Oriente Médio e as flutuações dos preços do petróleo tiraram o foco dos EUA da Venezuela por enquanto.

O papel dos EUA nos assuntos venezuelanos será como os eventos globais anteriores que foram as principais questões globais e, portanto, nenhum lado da oposição venezuelana pode contar com tal garantia para adquirir progresso em questões políticas e independentes de natureza não convencional.

Ao falar sobre a dinâmica interna da mudança política na Venezuela, ele deixou claro, no entanto, que ela é determinada principalmente por causas endógenas.

Elas abrangem a disposição de autoridades de alto escalão para renovar os vestígios do passado, bem como o patrocínio militar das propostas — Quintero afirma que elas estão ausentes no futuro próximo.

Portanto, Quintero acha que a oposição precisa elaborar uma estratégia mais clara e focada, se fortalecer e lidar com os problemas internos.

Com as restrições das distrações globais devido ao desvio de atenção e as complicações na cena política local, o analista concluiu que qualquer possibilidade de uma mudança real na Venezuela está nas mãos dos venezuelanos e na capacidade da oposição de garantir apoio militar.