América Latina enfrenta crise de fertilizantes se EUA atacam exportações russas com sanções secundárias

América Latina enfrenta crise de fertilizantes se EUA atacam exportações russas com sanções secundárias
Noris Soto
21 de jul. de 2025, 13:53 PM
  • As sanções dos Estados Unidos aos fertilizantes russos podem atrapalhar as safras latino-americanas.
  • Brasil e México dependem fortemente das importações russas, com poucas alternativas.
  • O aumento dos custos pode aumentar os preços dos alimentos nos EUA, especialmente abacates e soja.

Os agricultores da América Latina podem enfrentar um problema significativo de abastecimento se os Estados Unidos impuserem restrições secundárias aos consumidores de commodities russas, particularmente fertilizantes críticos para a produção agrícola da região.

De acordo com a Reuters, com países cruciais como Brasil e México significativamente dependentes de fertilizantes russos, os especialistas temem que os efeitos cascata possam comprometer as cadeias globais de abastecimento de alimentos e aumentar os preços para os consumidores americanos.

Dependência de fertilizantes do Brasil não mostra alternativas

A Rússia foi responsável por US $ 3,7 bilhões, cerca de um terço das necessidades totais de fertilizantes, para o Brasil, o maior país produtor de soja, café e açúcar do mundo.

E essa dependência só cresceu, com os embarques russos aumentando quase 30% no primeiro semestre deste ano, disse a Associação Russa de Produtores de Fertilizantes.

No entanto, especialistas do setor destacam que o Brasil quase não tem meios de substituir rapidamente esses volumes, se esses suprimentos pararem devido a novas sanções dos EUA.

De acordo com Lucas Beber, vice-presidente da Aprosoja, a produção de soja e milho pode se tornar "inviável"

Na América Latina, a compra de pânico e o acúmulo de estoques seguiram imediatamente a eclosão da guerra na Ucrânia em 2022.

Houve um breve aumento de preços, mas a circulação comercial se normalizou desde então.

Iniciativas domésticas para reduzir a dependência de importações, o Brasil tem planos de reduzir a dependência de fertilizantes em quase 50%, mas estes estagnaram devido a restrições financeiras e matérias-primas e gás domésticos caros.

México enfrenta choque na oferta de fertilizantes

O México, principal fornecedor de abacates dos Estados Unidos, importou mais de US$ 580 milhões em fertilizantes da Rússia em 2024.

Raul Urteaga, ex-diretor de assuntos internacionais do Ministério da Agricultura do México, acredita que a ureia russa é especialmente importante para commodities como milho, trigo e abacate.

Se as sanções dos EUA cortarem essas fontes, os produtores podem ter preocupações com a qualidade ou ser obrigados a obter alternativas mais caras, aumentando o custo geral de produção.

Para os consumidores americanos, isso pode significar um aumento nos preços do abacate. Os Estados Unidos recebem mais de 80% das exportações de abacate do México, que totalizaram mais de US$ 3 bilhões no ano passado.

Colômbia e América Central também em risco

A Colômbia também depende da Rússia para uma parcela significativa de seus insumos agrícolas, já que a Rússia é responsável por um quarto das importações de fertilizantes para o país sul-americano.

A Colômbia é um dos maiores produtores de frutas, café e flores, especialmente para o mercado dos Estados Unidos.

O Banco Mundial também apontou que o custo dos fertilizantes já foi destacado na América Central como um fator-chave que afeta a inflação dos alimentos.

O país tem sido sobrecarregado pelo aumento dos preços dos insumos, impulsionado por uma série de razões, todas as quais levaram a migração para o norte, contribuindo para a crise do custo de vida da região.

As interrupções no fornecimento já são sentidas

Mesmo as empresas que se distanciaram dos fornecedores russos estão se preparando para a disrupção.

De acordo com Eduardo Monteiro, gerente nacional da Mosaic, empresa de fertilizantes localizada nos Estados Unidos, as preocupações geopolíticas já atrasaram as entregas aos agricultores brasileiros.

Isso pode afetar o fornecimento de fertilizantes durante a temporada de plantio de setembro.

Dados comerciais sugerem que empresas privadas como Eurochem e Fertipar continuam processando fertilizantes russos no Brasil.

Ambas as empresas se recusaram a comentar sobre o impacto potencial das penalidades dos EUA.

Progresso lento na produção doméstica

A América Latina falhou na corrida pela independência dos fertilizantes.

Os altos custos de capital e o licenciamento complicado frustraram os esforços liderados pelo Estado brasileiro, e uma mina de potássio há muito adiada na Amazônia pela Brazil Potash Corp ainda está em desenvolvimento.

Pouco progresso foi feito na meta do México de aumentar a produção doméstica de 33% para 80% da demanda.

A Pemex teve pouco sucesso em tornar sua divisão de fertilizantes uma empresa lucrativa.

Rússia olha para o BRICS para crescer

Apesar da escalada das sanções e proibições no Ocidente, os produtores russos de fertilizantes esperam expandir sua participação no mercado mundial para 25% até 2030.

Seu plano se concentra em fortalecer as conexões com os países em desenvolvimento na aliança BRICS, que inclui Brasil, Índia e China.

Para os agricultores latino-americanos – e seus clientes globais – as consequências de qualquer nova rodada de restrições dos EUA ao comércio russo podem ser rápidas, abrangentes e caras.