Venezuela busca adesão ao BRICS com oferta estratégica de petróleo em meio à turbulência política

Venezuela busca adesão ao BRICS com oferta estratégica de petróleo em meio à turbulência política
Noris Soto
12 de ago. de 2024, 16:58 PM
  • Maduro confirmou o desejo da Venezuela de se tornar um parceiro estratégico e confiável dentro do grupo BRICS.
  • Fortalecer os laços com a Rússia tem sido um componente fundamental da estratégia da Venezuela.
  • O embaixador da Venezuela na ONU cita as extensas reservas de petróleo como um bem valioso para os recursos coletivos dos BRICS.

Em um movimento ousado para melhorar sua posição global, a Venezuela propôs alavancar suas vastas reservas de petróleo para ganhar adesão ao grupo BRICS, composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Esse esforço por inclusão ocorre em meio a uma significativa agitação política e desafios econômicos no país.

O presidente Nicolás Maduro afirmou publicamente a ambição da Venezuela de se juntar ao BRICS durante uma transmissão recente de seu programa de rádio, “Con Maduro de Repente”.

'A Venezuela está renascendo tanto interna quanto externamente'

Maduro descreveu a medida como um passo fundamental para conectar a Venezuela a uma nova ordem mundial, enfatizando a resiliência do país apesar de enfrentar sanções e agressões internacionais.

"A Venezuela está renascendo tanto interna quanto externamente", declarou ele, refletindo um sentimento de otimismo sobre a potencial adesão ao BRICS.

O Ministro das Relações Exteriores Yván Gil ecoou o entusiasmo de Maduro na Reunião de Ministros das Relações Exteriores do BRICS+.

Gil destacou as conquistas da Venezuela e suas potenciais contribuições ao grupo BRICS, sugerindo que a adesão revigoraria os processos baseados na solidariedade e daria continuidade ao legado da visão do ex-líder Hugo Chávez.

Ele ressaltou que a integração da Venezuela ao BRICS seria um movimento estratégico contra o imperialismo e o neocolonialismo.

Fortalecer os laços com a Rússia tem sido um componente fundamental da estratégia da Venezuela.

Na recente cúpula do BRICS+ em Nizhny Novgorod, o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, e o Ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Yván Gil, assinaram um acordo para resistir às sanções dos EUA, refletindo um aprofundamento das relações russo-venezuelanas.

Esta parceria visa reforçar o apoio econômico e diplomático diante das pressões ocidentais.

Joaquín Pérez Ayestarán, embaixador da Venezuela na ONU, expressou grandes esperanças na adesão do país ao BRICS, citando as extensas reservas de petróleo da Venezuela como um bem valioso para os recursos coletivos do grupo.

Ele prevê que uma decisão oficial sobre a candidatura da Venezuela ao BRICS será anunciada na próxima cúpula do BRICS em Kazán, Rússia, em outubro.

No entanto, ele reconheceu que, se a candidatura não for bem-sucedida, a Venezuela continua comprometida em participar ativamente da arena internacional.

Mais sobre estratégia geopolítica do que benefícios econômicos imediatos?

Apesar dessas ambições, a Venezuela enfrenta vários obstáculos.

Segundo dados da OPEP, a produção de petróleo da Venezuela foi 76.000 barris por dia menor do que o relatado pelo Ministério do Petróleo em julho, totalizando 852.000 barris.

Esse déficit de produção destaca os desafios atuais do setor petrolífero do país.

O economista Henkel García, da Econométrica, sugere que a busca da Venezuela pela adesão ao BRICS tem mais a ver com estratégia geopolítica do que com benefícios econômicos imediatos.

Ele observa que o foco parece estar em obter apoio dos países do BRICS para fortalecer alianças em meio às mudanças na dinâmica global.

García também ressalta que manobras geopolíticas, como o alinhamento com países em desacordo com os EUA, podem ter ramificações significativas além de meras considerações econômicas.

Enquanto isso, o economista venezuelano Alejandro Grisanti está cético sobre os benefícios práticos da adesão ao BRICS para a Venezuela.

Ele argumenta que os membros do BRICS são caracterizados por suas grandes economias e populações, critérios que a Venezuela não atende. Grisanti compara a economia da Venezuela à da República Dominicana e sua população à do Panamá e da Costa Rica, questionando o potencial impacto econômico de se juntar ao BRICS.

Ele vê a possível adesão mais como um gesto político do que como um catalisador para melhorias econômicas significativas ou classificações de crédito mais altas.

O esforço da Venezuela para ingressar no BRICS, impulsionado por suas reservas de petróleo e alianças estratégicas, destaca uma interação complexa de geopolítica e aspirações econômicas.

Ainda não se sabe se essa medida se traduzirá em benefícios tangíveis ou se permanecerá apenas como um gesto simbólico.