Desaceleração econômica da Alemanha: o doente da Europa novamente?

Desaceleração econômica da Alemanha: o doente da Europa novamente?
Dionysis Partsinevelos
03 de set. de 2024, 07:37 AM
  • A desaceleração econômica da Alemanha é marcada por subinvestimento, baixo crescimento e uma força de trabalho envelhecida e em declínio.
  • As políticas energéticas do país nos últimos anos foram equivocadas, gerando custos severos.
  • A estratégia geopolítica da Alemanha está levantando preocupações sobre sua estabilidade e influência futuras na Europa.

A Alemanha, que já foi o motor econômico da Europa, agora enfrenta uma grave crise.

A economia do país passa por um momento difícil, marcado por crescimento lento, redução da força de trabalho, decisões controversas e desafios estruturais que ameaçam sua reputação e estabilidade a longo prazo.

Como a maior economia da Europa, as dificuldades da Alemanha não são apenas uma preocupação nacional, mas têm implicações significativas para todo o continente.

A Alemanha é o “homem doente da Europa” ou há esperança no horizonte?

Uma economia “velha” e em desaceleração

A verdade está lá fora: a economia da Alemanha tem enfrentado dificuldades nos últimos anos.

Foi o único país do G7 a encolher em 2023 e espera-se que cresça apenas 0,2% em 2024, o mais lento entre seus pares.

Esse desempenho lento aponta para problemas mais profundos que vêm se acumulando há anos.

A força de trabalho do país está diminuindo, com a população em idade ativa (de 15 a 64 anos) prevista para diminuir 1% ao ano na próxima meia década.

Essa tendência demográfica, aliada ao baixo crescimento da produtividade — menos de 1% nos últimos anos — estabeleceu um padrão baixo para a expansão econômica.

A força de trabalho da Alemanha não está apenas diminuindo, mas também trabalhando menos horas do que em qualquer outro país da OCDE, agravando o problema de produtividade.

Além disso, os níveis de investimento público da Alemanha são assustadoramente baixos. De 2018 a 2022, o investimento público teve uma média de apenas 2,3% do PIB, um dos mais baixos entre os países de alta renda, limitando ainda mais o potencial de crescimento do país.

Esse subinvestimento é evidente na infraestrutura envelhecida do país, que não atendeu às expectativas dos fãs de futebol europeus que foram à Alemanha neste verão, destruindo preconceitos positivos de longa data sobre o sistema de transporte do país.

Os cidadãos reclamam há muito tempo sobre viagens canceladas, atrasos em chegadas e partidas e baixa manutenção na infraestrutura, considerando a outrora elogiada “Deutsche Bahn” como simplesmente não confiável.

Ambientalismo equivocado

A decisão da Alemanha de fechar suas usinas nucleares, mesmo em meio a uma crise energética, reflete um ambientalismo voltado para o decrescimento que saiu pela culatra.

Isso deixou o país mais dependente de fontes de energia com alto teor de carbono e de importações caras, prejudicando sua transição verde.

Além disso, essas usinas não eram apenas fontes de energia com emissão zero de carbono, mas também cruciais para reduzir a dependência da Alemanha do gás natural russo.

Com seu fechamento, a Alemanha agora enfrenta uma crise energética, forçando-a a investir pesadamente em usinas de gás natural emissoras de carbono para preencher a lacuna deixada pela energia nuclear.

Essa medida aumentou a vulnerabilidade da Alemanha a choques energéticos, especialmente devido ao cenário geopolítico volátil após a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Erros geopolíticos e estratégicos

A estratégia geopolítica da Alemanha também está sob escrutínio. O país tem sido lento em aumentar seu orçamento de defesa, apesar das crescentes ameaças à segurança na Europa.

Embora a Alemanha tenha prometido se tornar o "arsenal da democracia" da Europa, seus gastos com defesa não acompanharam essas promessas.

De fato, de acordo com o Politico, o governo alemão anunciou recentemente um congelamento de nova ajuda militar à Ucrânia, redirecionando fundos para outras prioridades domésticas.

Esta decisão levantou preocupações sobre o comprometimento da Alemanha com a segurança europeia, particularmente diante de uma potencial agressão russa caso a Ucrânia caia.

Além disso, os laços econômicos da Alemanha com a China se tornaram um ponto de discórdia.

Apesar dos alertas do governo sobre os riscos da dependência excessiva do mercado chinês, as empresas alemãs, especialmente no setor automotivo, continuaram a investir na China.

Essa estratégia "Na China, para a China", em que as empresas reinvestem os lucros obtidos na China no país, levou a uma queda nas exportações da Alemanha para a China, um dos poucos pontos positivos em sua economia após a crise do início da década de 2010.

O ambiente político na Alemanha também é problemático, com um sistema político fragmentado que dificulta a implementação das reformas necessárias.

O governo de coalizão do chanceler Olaf Scholz está dividido em questões importantes como tributação, investimento público e regulamentação, o que leva a um progresso estagnado.

Os índices de aprovação do governo são baixos, e o partido populista de extrema direita Alternativa para a Alemanha está ganhando popularidade, aumentando ainda mais o medo e a incerteza que cercam o país.

Um modelo económico em ruínas

O modelo econômico da Alemanha, antes aclamado como um sucesso, agora mostra sinais de tensão. O país historicamente dependeu de seu setor de manufatura e exportações para impulsionar o crescimento.

No entanto, a mudança global em direção aos serviços, juntamente com o fim da era da globalização e o crescente protecionismo, atingiu duramente a economia dependente de exportações da Alemanha.

Além disso, a estratégia recentemente adotada pela China de copiar e substituir a tecnologia alemã prejudicou o setor manufatureiro da Alemanha, pois o comércio global desacelerou e a China agora se tornou uma concorrente.

Para agravar esses problemas, há a resistência da Alemanha em adotar tecnologias digitais, deixando-a para trás na economia digital global.

Apesar de ser a maior economia da Europa, o papel da Alemanha no setor digital continua insignificante, ameaçando ainda mais sua competitividade no cenário global.

Tem poucas grandes empresas de software, um setor de P&D estagnado e um mercado imobiliário prejudicado por regulamentação excessiva. A burocracia do país também é esclerosada, desacelerando processos vitais como construção e adoção tecnológica.

O caminho a seguir da Europa

A situação atual da Alemanha é o resultado de uma combinação de choques externos e feridas autoinfligidas.

A relutância do país em aumentar o investimento público, adotar a transformação digital e se adaptar às mudanças na dinâmica global o deixou vulnerável à estagnação econômica.

Além disso, sua política energética, estratégia de defesa e dependência excessiva da China levantaram preocupações sobre sua estabilidade e influência a longo prazo na Europa.

Para evitar um declínio maior, a Alemanha precisa encarar esses desafios de frente. Aumentar o investimento público, particularmente em infraestrutura e educação, é essencial para impulsionar a produtividade e dar suporte ao crescimento de longo prazo.

Adotar tecnologias digitais e reduzir a burocracia pode ajudar a modernizar a economia e aumentar sua competitividade global.

Além disso, uma abordagem mais estratégica à política energética e aos gastos com defesa garantiria a segurança nacional e reduziria a dependência de mercados estrangeiros voláteis.

A desaceleração econômica atual na Alemanha levantou preocupações sobre a saúde geral da economia europeia, o que pode pesar muito sobre o euro.

O Banco Central Europeu (BCE) já sinalizou uma mudança em direção a um ciclo de corte de juros, uma medida normalmente voltada para estimular o crescimento.

No entanto, se a estagnação econômica da Alemanha persistir, isso poderá ter o efeito oposto, levando os investidores europeus a mercados mais robustos, como os Estados Unidos.

O futuro da Alemanha como líder econômica da Europa está em jogo. À medida que os EUA recuam de sua liderança tradicional na segurança europeia, a Alemanha deve estar à altura da ocasião.

Sem uma ação decisiva, a Europa corre o risco de se tornar vulnerável a ameaças externas, particularmente da Rússia. A liderança da Alemanha, tanto econômica quanto militarmente, é essencial para salvaguardar a estabilidade e o futuro da Europa.

Chegou a hora da Alemanha parar de "brincar" e tomar medidas decisivas.