As montadoras europeias estão caminhando para uma espiral mortal?

As montadoras europeias estão caminhando para uma espiral mortal?
Dionysis Partsinevelos
03 de out. de 2024, 14:22 PM
  • As vendas de veículos elétricos na Europa despencaram, com uma queda de 36% em agosto.
  • A agitação trabalhista está crescendo, com protestos contra possíveis fechamentos de fábricas à medida que a concorrência global aumenta.
  • Os altos custos de energia e a política industrial ineficaz da Europa ameaçam o futuro do setor automotivo.

A indústria automotiva europeia, há muito líder global em inovação e fabricação, agora enfrenta uma crise existencial.

Com as vendas de veículos elétricos (VE) em declínio acentuado, as greves trabalhistas se espalhando e os custos de energia aumentando, o futuro da produção de automóveis na Europa está cada vez mais incerto.

À medida que esses desafios se intensificam, muitos questionam se o setor conseguirá sobreviver em sua forma atual.

Fabricantes de automóveis estão lutando com queda nas vendas de veículos elétricos

O mercado europeu de veículos elétricos, outrora aclamado como uma história de sucesso, sofreu um declínio acentuado nos últimos meses.

As vendas de veículos elétricos caíram 36% na região em agosto, com a Alemanha, o maior mercado de automóveis da Europa, sofrendo o impacto dessa crise, com uma queda impressionante de 69% nas vendas de veículos elétricos.

De acordo com a Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA), esse declínio acentuado na demanda deixou as montadoras lutando por soluções.

A queda nas vendas ocorre depois que muitos governos na Europa reduziram os incentivos financeiros que tornaram os veículos elétricos mais acessíveis.

Em combinação com a alta inflação e o aumento dos custos de energia, essa retração tornou mais difícil para os consumidores justificarem a já cara mudança para veículos elétricos.

Como resultado, a participação de mercado de veículos elétricos caiu para 14% em agosto, ante pouco mais de 15% no ano anterior.

Fabricantes como a Volkswagen e a Renault, que antes apostavam muito em uma transição bem-sucedida para veículos elétricos, agora enfrentam dificuldades para cumprir as metas de emissões da frota da UE, que devem ficar mais rígidas em 2025.

O não cumprimento desses padrões pode resultar em bilhões de euros em multas para as montadoras, colocando ainda mais pressão sobre o setor.

A BMW, uma das principais montadoras do continente, já reduziu sua previsão de lucros para o ano inteiro devido às fracas vendas de veículos elétricos.

Enquanto isso, a Volkswagen está considerando fechar fábricas nacionais pela primeira vez em décadas.

Isso levou ao aumento da agitação trabalhista, com greves e protestos surgindo por toda a Europa, principalmente em Bruxelas.

A crescente agitação dos trabalhadores pode causar caos

À medida que as montadoras europeias enfrentam queda na demanda e pressões regulatórias, elas também estão lidando com disputas trabalhistas significativas.

O possível fechamento da fábrica da Audi em Bruxelas, que emprega 3.000 pessoas, gerou protestos generalizados.

Mais de 5.000 trabalhadores marcharam recentemente pelas ruas de Bruxelas, protestando contra a ameaça aos seus empregos e pedindo às autoridades europeias que protejam a indústria automotiva do continente da concorrência estrangeira mais barata, especialmente da China.

A fábrica da Audi em Bruxelas, que produz o Q8 e-Tron elétrico, simboliza a incerteza enfrentada até mesmo pelas fábricas focadas em veículos elétricos.

Apesar de produzir um modelo alinhado com o impulso da Europa por tecnologia verde, a fábrica enfrenta potencial fechamento devido à baixa demanda pelo veículo.

Autoridades sindicais alertam que o destino da fábrica é parte de uma questão mais ampla, com a indústria europeia perdendo terreno para concorrentes globais mais baratos.

O mercado de trabalho europeu, particularmente no setor automobilístico, está enfrentando uma tensão crescente à medida que os fabricantes buscam maneiras de cortar custos em resposta ao aumento dos preços da energia e à queda nas vendas.

A Volkswagen, por exemplo, já desfez um pacto trabalhista de décadas e pode fechar fábricas nacionais.

Os trabalhadores temem que, sem uma intervenção significativa, muitas outras fábricas europeias possam fechar, levando a perdas generalizadas de empregos.

Preços da energia: o "calcanhar de Aquiles" da Europa

Um dos desafios mais urgentes para as montadoras europeias são os altos preços da energia no continente.

Os choques de preços causados pela invasão da Ucrânia pela Rússia, combinados com as atuais tensões geopolíticas, fizeram com que a Europa pagasse alguns dos maiores custos de energia do mundo.

Com os preços do petróleo bruto Brent oscilando em torno de US$ 90 o barril e os custos do diesel subindo 60% desde o verão, a indústria europeia está cada vez menos competitiva em comparação a outras economias avançadas, como EUA, Japão e Canadá.

A dependência da Europa de energia importada, particularmente de gás russo, não foi totalmente mitigada, apesar dos esforços para diversificar as linhas de fornecimento.

Os embarques de gás norueguês e gás natural liquefeito (GNL) preencheram algumas lacunas, mas não o suficiente para compensar o forte aumento nos custos de energia.

Esses custos mais altos de insumos estão pressionando as montadoras, que já estão lidando com queda nas vendas e pressões regulatórias.

O alto custo da energia está colocando as montadoras europeias em clara desvantagem em comparação com suas equivalentes nos EUA e na Ásia, onde os preços da energia são mais baixos e os subsídios governamentais para tecnologias de energia limpa são mais robustos.

De acordo com a Economist Intelligence Unit, os aumentos nos preços da energia na Europa terão implicações de longo prazo, incluindo falências empresariais, maiores encargos com a dívida e retrocessos na transição verde.

As montadoras europeias conseguirão sobreviver?

Considerando esses desafios combinados — queda na demanda por veículos elétricos, agitação trabalhista e choques nos preços de energia — há uma preocupação crescente de que as montadoras europeias possam estar caminhando para uma espiral mortal.

A questão permanece: a indústria conseguirá sobreviver ou será gradualmente corroída por forças externas?

Uma das questões críticas é a falta de uma política industrial coesa na Europa.

Enquanto os EUA, a China e o Japão implementaram políticas agressivas para apoiar suas indústrias nacionais na transição para energia limpa, a Europa ficou para trás.

O Acordo Verde da UE, embora ambicioso, não conseguiu atender às necessidades imediatas das indústrias que enfrentam o aumento dos custos e a incerteza geopolítica.

A falta de minerais essenciais acessíveis para as cadeias de fornecimento de energia limpa, juntamente com acordos comerciais estagnados com importantes produtores de commodities, como o Mercosul, só aumentaram os problemas da Europa.

Além disso, a rápida ascensão dos fabricantes chineses de veículos elétricos aumenta ainda mais a pressão sobre as montadoras europeias.

Empresas como BYD, Xpeng e Li Auto capitalizaram sua capacidade de produzir veículos elétricos acessíveis e de alta tecnologia.

Em setembro, várias dessas empresas chinesas quebraram recordes de vendas, oferecendo descontos agressivos e lançando novos modelos equipados com tecnologias avançadas de direção semiautônoma.

Esses esforços permitiram que eles superassem não apenas as montadoras europeias, mas também concorrentes globais como a Tesla.

Com as empresas chinesas ganhando terreno significativo no mercado global de veículos elétricos, as montadoras europeias agora enfrentam forte concorrência de rivais de menor custo e mais adaptáveis, que estão rapidamente expandindo sua influência para além das fronteiras da China.

À luz desses acontecimentos, os estados-membros da UE devem votar em 4 de outubro sobre a imposição de tarifas significativas sobre veículos elétricos (VEs) chineses, com taxas propostas chegando a 36%.

A medida ocorre depois que uma investigação da UE descobriu que os subsídios estatais chineses estavam dando aos seus fabricantes de veículos elétricos uma vantagem injusta sobre os concorrentes europeus.

Sem uma estratégia coerente para a política energética e industrial, e à medida que ficam atrás dos concorrentes chineses, as montadoras europeias continuarão a enfrentar desafios crescentes nos próximos anos.

Se o continente não puder melhorar suas políticas industriais ou oferecer alternativas competitivas no mercado de veículos elétricos, corre o risco de ver seu setor automotivo se deteriorar à medida que empresas estrangeiras conquistam participação de mercado.

O que precisa mudar?

Para que as montadoras europeias evitem uma espiral mortal, mudanças significativas são necessárias tanto no nível corporativo quanto no político.

Primeiro, os governos europeus devem reavaliar sua abordagem para incentivar a adoção de veículos elétricos.

A revogação dos subsídios prejudicou a demanda em um momento em que os consumidores já estão sentindo o impacto da inflação e dos altos custos de energia.

Uma abordagem mais direcionada aos subsídios, talvez focada em tornar os veículos elétricos acessíveis para compradores de renda média, poderia ajudar a reacender a demanda.

Em segundo lugar, a Europa precisa de uma política industrial mais abrangente que apoie seu setor automotivo durante a transição verde.

Isso inclui garantir acesso acessível a minerais essenciais e construir cadeias de suprimentos mais resilientes.

Acordos comerciais com parceiros importantes como o Mercosul devem ser revisados, e novos relacionamentos com mercados emergentes devem ser explorados para garantir que a Europa tenha os recursos necessários para permanecer competitiva.

Por fim, as próprias montadoras precisam se adaptar às novas realidades do mercado.

Isso pode significar reduzir a produção em regiões de alto custo, otimizar as operações e investir em novas tecnologias que reduzam os custos de fabricação.

Empresas como a BMW já começaram a se preparar para padrões de emissões mais rigorosos da UE, mas mais precisa ser feito em todo o setor para evitar penalidades regulatórias e manter a competitividade em um mercado em constante mudança.

Embora possa haver esperança a longo prazo para os fabricantes de veículos elétricos na Europa, é realmente difícil encontrar um argumento positivo sobre por que alguém investiria nesse mercado por enquanto.