A queda de Assad abre portas para empresas turcas, mas levanta preocupações sobre o mercado de trabalho

A queda de Assad abre portas para empresas turcas, mas levanta preocupações sobre o mercado de trabalho
Vatsala Gaur
10 de dez. de 2024, 06:01 AM
  • Empresas turcas de construção e cimento registram aumento nas ações com expectativas de contratos de reconstrução na Síria.
  • A reconstrução da Síria pode impulsionar as exportações da Turquia, mas desafiar as indústrias que dependem de refugiados sírios.
  • Os líderes turcos pretendem aproveitar a queda de Assad para obter ganhos econômicos e geopolíticos.

A recente queda do regime de Bashar al-Assad na Síria marca uma mudança política sismica, abrindo desafios e oportunidades para a Turquia.

Especialistas e líderes empresariais antecipam efeitos significativos na economia da Turquia, particularmente por meio de esforços de reconstrução e dinâmica da força de trabalho.

Setores de construção e cimento turcos liderarão esforços de reconstrução

As ações de empresas turcas de construção e cimento dispararam na segunda-feira após o anúncio da queda de Assad.

A Bursa Çimento e a Oyak Çimento subiram 5,3% e 9,9%, respectivamente, enquanto a siderúrgica Iskenderun Demir Çelik registrou um aumento de 10%.

Analistas atribuem esses ganhos às expectativas de um papel fundamental das empresas turcas na reconstrução das cidades sírias devastadas pela guerra.

“Produtores de cimento como a Limak Doğu Anadolu Çimento e a Oyak Çimento estão prontos para se beneficiar, enquanto a gigante da construção Enka Inşaat provavelmente liderará projetos em larga escala”, disse Yakup Toktamış, da Trive Yatırım.

A proximidade da Turquia e os laços comerciais existentes com a Síria colocam suas empresas em uma posição vantajosa para contratos relacionados à reconstrução da infraestrutura devastada durante a guerra civil de 13 anos.

Yusuf Doğan, da corretora Info Yatırım, acrescentou: “Cimento e aço serão os principais catalisadores para a reconstrução da Síria, criando oportunidades de longo prazo para empresas turcas.

No entanto, o cronograma de implementação do projeto pode moderar as expectativas dos investidores.”

Desafios econômicos na Turquia surgem à medida que trabalhadores sírios começam a retornar para casa

Essa tendência está levantando preocupações entre as empresas turcas que dependem da mão de obra síria, que se tornou uma pedra angular de vários setores, incluindo têxteis, agricultura e manufatura.

Ao mesmo tempo, com o retorno da estabilidade à Síria, alguns refugiados sírios começaram a voltar.

Somente no ano passado, mais de 108.000 sírios receberam permissões de trabalho na Turquia.

A saída dessa força de trabalho pode sobrecarregar setores que dependem de mão de obra barata, aumentando os custos e reduzindo a lucratividade.

“Dada a fraca demanda interna, as empresas podem ter dificuldade em repassar esses custos aos consumidores”, alertaram analistas do setor.

Apesar desses desafios, alguns líderes empresariais continuam otimistas.

Mehmet Kaya, presidente da Câmara de Comércio de Diyarbakır, afirmou: “Os sírios formam uma pequena porcentagem da força de trabalho na Turquia. Muitos deles estabeleceram negócios ou passaram a ocupar cargos de colarinho branco, o que sugere que nem todos irão embora.”

Em Gaziantep, um centro de negócios e indústrias sírias, os trabalhadores sírios representam apenas 3% da força de trabalho, de acordo com Fikret Kileci, da Associação de Exportadores da Anatólia.

Adnan Ünverdi, presidente da Câmara de Comércio de Gaziantep, ecoou essa opinião, observando que as empresas de propriedade síria empregam principalmente sírios.

"Se eles retornarem, as operações podem sofrer interrupções de curto prazo, mas as empresas podem facilmente preencher as lacunas com trabalhadores turcos desempregados", disse Ünverdi.

Reavivamento do comércio bilateral previsto

O comércio bilateral entre Turquia e Síria, que atingiu o pico de US$ 2,3 bilhões em 2010 antes de cair para US$ 565 milhões em 2012 devido ao conflito, deve se recuperar.

“O comércio entre a Turquia e a Síria ganhará impulso”, disse Cemal Demirtaş, da Ata Yatırım.

O processo de reconstrução pode impulsionar significativamente as exportações da Turquia para a Síria, especialmente de cimento e aço.

No entanto, a escala e o ritmo dessa revivificação dependerão dos desenvolvimentos políticos e econômicos na Síria.

Embora a demanda por produtos turcos possa aumentar, as incertezas econômicas globais e os riscos geopolíticos podem moderar os ganhos.

Dinâmica geopolítica: uma bênção para a agenda de Erdoğan

A queda de Bashar al-Assad é vista como uma vitória estratégica para o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, cujo governo apoiou grupos de oposição sírios ao longo do conflito.

Com a saída de Assad, a influência da Turquia na Síria pode se expandir, permitindo que Ancara controle os separatistas curdos no nordeste da Síria e proteja sua fronteira sul.

O economista Timothy Ash descreveu esse desenvolvimento como um “movimento genial de Erdoğan”, enfatizando os benefícios estratégicos e econômicos que a Turquia pode obter.

Perspectiva de investimento: otimismo cauteloso

A queda de Assad gerou otimismo nos mercados financeiros turcos, com os índices de construção e cimento registrando fortes ganhos.

No entanto, analistas pedem cautela, destacando os longos prazos dos projetos de infraestrutura e a possível volatilidade no cenário político da Síria.

Serhat Başkurt, da ALB Yatırım, destacou a importância de empresas como a Enka Inşaat e a Bursa Çimento. "A experiência da Enka em projetos internacionais a posiciona como líder na reconstrução da Síria, enquanto a capacidade da Bursa Çimento lhe dá uma vantagem no fornecimento de cimento", disse ele.

Embora os investidores permaneçam otimistas, as implicações mais amplas para a economia da Turquia — que vão desde ajustes no mercado de trabalho até dinâmicas comerciais — ressaltam a complexidade de navegar na era pós-Assad.