Banco Central do Brasil alerta que a lucratividade das empresas pode cair para o menor nível em 8 anos com o aumento das taxas de juros.

Banco Central do Brasil alerta que a lucratividade das empresas pode cair para o menor nível em 8 anos com o aumento das taxas de juros.
Noris Soto
29 de abr. de 2025, 15:38 PM
  • Espera-se que o retorno médio sobre o patrimônio líquido caia para 3,92% até setembro de 2025, o nível mais baixo desde 2017.
  • O crédito às famílias continua a crescer em segmentos mais arriscados, com padrões de concessão de crédito mais frouxos.
  • Instituições financeiras planejam apertar o crédito em 2025 em meio ao aumento da dívida e dos riscos de inadimplência.

O Banco Central do Brasil alertou para uma queda acentuada na lucratividade das empresas à medida que o aperto monetário agressivo do país começa a se espalhar pela economia em geral.

Em seu mais recente Relatório de Estabilidade Financeira , divulgado na terça-feira, o Banco Central do Brasil projetou que o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) mediano para empresas não financeiras de capital aberto poderia cair para apenas 3,92% até setembro de 2025, em comparação com 8,92% em setembro de 2024, quando o atual ciclo de aumento de juros começou.

Se a previsão se confirmar, representará o menor ROE desde setembro de 2017, quando o Brasil ainda se recuperava de uma profunda recessão desencadeada pela instabilidade fiscal, turbulência política e uma queda global nos preços das commodities.

A ROE projetada também é pior do que durante a crise da COVID-19, que viu a lucratividade cair para 5,54% em meados de 2020.

Embora o banco tenha observado que o impacto pode ser menos severo do que durante a recessão de 2015-2016, ele enfatizou que “a capacidade de pagamento das empresas deve diminuir significativamente no curto prazo”.

Selic aumenta a pressão sobre os lucros corporativos

O banco central elevou a taxa Selic, referência para a economia, em 375 pontos-base, para 14,25%, adotando uma postura agressiva contra a inflação.

Em meados de abril, a inflação anual permaneceu elevada, em 5,49%, bem acima da meta de 3%, gerando expectativas de mais um aumento em maio.

Embora o aperto monetário tenha moderado as pressões inflacionárias, também aumentou os custos de empréstimo, afetando as margens de lucro e os retornos das empresas.

O banco central enfrenta um delicado equilíbrio: conter a inflação sem sufocar a atividade econômica.

Até agora, o setor corporativo brasileiro parece estar suportando o peso maior do ajuste.

Sinais de alerta nos mercados de crédito doméstico

Embora a demanda por crédito corporativo esteja diminuindo, o banco central sinalizou riscos emergentes nos mercados de crédito residencial e ao consumidor.

O crédito às famílias cresceu no final de 2024, particularmente entre mutuários de maior risco e menor renda, apesar das taxas de juros elevadas.

Os empréstimos para automóveis dispararam, com mais consumidores financiando veículos mais antigos e dando entradas menores, levantando preocupações sobre a deterioração da qualidade do crédito. Os empréstimos pessoais sem garantia também aumentaram, sugerindo um afrouxamento dos padrões de concessão de crédito.

Embora o financiamento à economia real tenha continuado a expandir-se, o banco central observou que os credores estão a tornar-se mais cautelosos em 2025.

Uma pesquisa trimestral mostrou uma diminuição da tolerância ao risco devido ao aumento da dívida das famílias e à fragilidade das finanças das pequenas empresas.

Apesar das condições de crédito estáveis no geral, o banco central alertou para uma potencial instabilidade, apelando a “maior cautela e vigilância” nas práticas de empréstimo.

Com mais um aumento de juros no horizonte, os setores corporativo e de consumo podem enfrentar novas pressões nos próximos meses.