Inadimplência corporativa no Brasil aumenta à medida que gigantes do mercado recorrem à recuperação judicial

Inadimplência corporativa no Brasil aumenta à medida que gigantes do mercado recorrem à recuperação judicial
Noris Soto
14 de jul. de 2025, 14:04 PM
  • Empresas brasileiras como Oi, Gol e Azul usam a recuperação judicial, sinalizando uma tensão financeira mais profunda.
  • As emissões de ações alimentam a especulação e distorcem os valores do mercado brasileiro.
  • Obstáculos legais e disputas com credores atrasam planos de recuperação para empresas brasileiras.

Com o aumento da inadimplência de empresas no Brasil, uma tendência começou: as empresas listadas que antes permaneciam em falência agora estão usando a recuperação judicial como uma saída viável.

De acordo com o meio de comunicação local InfoMoney, essa é uma métrica associada ao estresse sistêmico profundamente arraigado colocado nas micro e pequenas empresas, mas agora está entrando no arsenal dos gigantes do mercado.

Dois exemplos importantes da semana passada sublinharam essa realidade. A Oi, empresa brasileira de telecomunicações, entrou com pedido para converter seu processo de insolvência com sede nos EUA do Capítulo 15 para o Capítulo 11, uma mudança que o torna mais compatível com o regime de recuperação judicial do Brasil.

Então, apenas algumas semanas depois, a companhia aérea Azul recebeu aprovação para entrar com pedido de Capítulo 11 nos Estados Unidos, preservando seu plano de reorganização.

Ao mesmo tempo, a Gol, outra companhia aérea líder, encerrou sua recuperação judicial no exterior em junho com um plano de capitalização de R$ 12 bilhões.

No entanto, o outro lado dessa recuperação criou algumas controvérsias no mercado devido aos trilhões de ações publicadas em lotes de 1.000, causando confusão entre os investidores e distorcendo momentaneamente seu valor de mercado.

Processo de recuperação: estrutura jurídica e implicações de mercado

No Brasil, as empresas em recuperação judicial podem continuar negociando na bolsa de valores, mas são excluídas de índices de referência como o Ibovespa.

O Manual da B3 exige transparência e divulgação regular, o que teoricamente permite negociações educadas, mas incentiva atividades especulativas.

Os investidores frequentemente usam essa fase para executar táticas de venda a descoberto, apostando na queda dos preços das ações. Nas fases iniciais da recuperação, o patrimônio líquido às vezes é pequeno ou mesmo negativo, pois as demandas dos credores têm precedência.

Essas dinâmicas fornecem um terreno fértil para a volatilidade do mercado e avaliações infladas, principalmente quando novas ações são emitidas, o que aumenta momentaneamente os preços de negociação.

O caso da Gol exemplificou essa situação. A companhia aérea emitiu ações preferenciais a R$ 0,01 por unidade, fazendo com que os ativos fossem negociados por mais de R$ 100 cada lote devido à estrutura do lote.

Os preços atingiram o pico em 13 de junho, ultrapassando R$ 700, impulsionando o valor de mercado da empresa, apesar de sua recuperação contínua.

Riscos e complexidades legais para os investidores

Os planos de recuperação judicial exigem o voto dos credores, com ponderações que refletem o valor e a natureza das reivindicações. Os grupos acima mencionados, trabalhadores, fornecedores e bancos, entre outros, têm interesses conflitantes, e essa complicação pode levar a disputas, prolongando o processo e criando incerteza no mercado e segurança dos investimentos.

Essa incerteza adiciona risco legal a todo o resto. Os investidores devem trabalhar com profissionais jurídicos e financeiros, diversificar portfólios e examinar os planos de recuperação.

Também pode resultar em diluição significativa para os acionistas atuais, pois as trocas de dívida em ações podem fazer parte do processo de reestruturação ou da emissão de novas ações.

Semelhante à Gol e à Americanas, isso retrata os dois lados da moeda do investidor. As ações da Gol receberam ofertas contínuas de precificação, enquanto a Americanas (que está em recuperação judicial desde janeiro de 2023 devido a R$ 41 bilhões em endividamento) viu o preço de suas ações despencar e cair mais de 90% em 2023.

Investimento estratégico durante uma crise: ativos e financiamento DIP

Apesar dos perigos, alguns investidores veem oportunidades em empresas em dificuldades, principalmente por meio da aquisição de ativos durante a recuperação judicial.

Estes podem incluir unidades industriais, bases de clientes ou atividades geradoras de receita vendidas como unidades de produção independentes (UPIs) sem obrigações anteriores.

Os tribunais permitem essas vendas após receber a autorização do credor, e elas são frequentemente tratadas por meio de leilões judiciais.

A Oi, por exemplo, vendeu seu negócio móvel e participações em novos empreendimentos como a InfraCo para levantar capital e pagar dívidas, abrindo caminho para um novo plano de recuperação a começar em 2024.

Outra opção estratégica é o financiamento DIP (Devedor em Posse). Esse tipo de investimento dá dinheiro às organizações durante o processo de recuperação em troca de prioridade de reembolso e garantias garantidas por ativos.

O financiamento DIP normalmente faz parte de um pacote de reestruturação maior e é estruturado usando títulos como debêntures ou empréstimos conversíveis.

A Americanas utilizou esse método em 2023 para garantir R$ 2 bilhões do BTG Pactual, seguido por um adicional de R$ 12 bilhões estruturado como um aporte conversível de acionistas de referência.

Dualidade jurídica: RJ do Brasil e EUA Capítulo 11

Muitas empresas brasileiras estão cada vez mais recorrendo ao Capítulo 11 nos Estados Unidos para gerenciar as negociações com credores com melhor velocidade e segurança jurídica, de acordo com o relatório do InfoMoney.

No entanto, para que as decisões judiciais dos EUA sejam válidas no Brasil, elas devem ser reconhecidas pelos tribunais brasileiros nos termos do Capítulo VI da Lei 11.101/2005, que supervisiona a recuperação judicial doméstica.

Embora a estrutura de insolvência do Brasil tenha sido aprimorada, especialistas jurídicos alertam que investir em empresas em recuperação judicial requer uma ampla due diligence.

A transparência, a clareza jurídica e os fundamentos operacionais da empresa devem ser ponderados ao determinar a viabilidade da recuperação e a probabilidade de retorno do investidor.

A crescente frequência de recuperações judiciais entre as empresas de capital aberto do Brasil indica um mercado sob pressão financeira e transformação legal.