Quiroga, da Bolívia, promete reforma da propriedade de recursos e sinaliza mudança nos laços com os EUA

Quiroga, da Bolívia, promete reforma da propriedade de recursos e sinaliza mudança nos laços com os EUA
Noris Soto
20 de ago. de 2025, 11:27 AM
  • Tuto Quiroga, da Bolívia, promete propriedade cidadã de lítio e gás se eleito.
  • O bloco de Quiroga e o partido de Rodrigo Paz parecem destinados a uma maioria de dois terços.
  • Quiroga expressa vontade de fortalecer os laços com os EUA e tomar medidas contra Evo Morales se eleito.

O candidato presidencial da Bolívia, Jorge "Tuto" Quiroga, prometeu grandes reformas econômicas, incluindo dar aos cidadãos participações diretas nos recursos naturais do país, se eleito em outubro.

De acordo com a Reuters, a medida representa um afastamento impressionante de mais de duas décadas de gestão estatal e enfatiza sua atitude pró-mercado enquanto se prepara para um segundo turno decisivo.

Candidato conservador emerge

Quiroga, de 65 anos, consolidou sua posição como o principal candidato conservador ao terminar em segundo lugar nas eleições gerais de 17 de agosto, obtendo cerca de 28% dos votos em um campo lotado de oito. Ele enfrentará o senador Rodrigo Paz, um centrista, no segundo turno em 19 de outubro.

Seu grupo Freedom Alliance, que se inclina para o mercado e conservador, já está formulando revisões constitucionais e formando coalizões no Congresso para acelerar a legislação.

Os resultados preliminares indicam que a coalizão, juntamente com o Partido Democrata-Cristão de Paz, ocupará 82 dos 130 assentos da Câmara Baixa, atendendo ao nível de dois terços necessário para aprovar uma legislação importante.

"Este é um momento decisivo", disse Quiroga à Reuters em sua primeira entrevista à mídia estrangeira desde que garantiu sua vaga no segundo turno. Falando de sua residência em La Paz, ele afirmou que seus planos buscam reestruturar o modelo econômico.

Plano de propriedade de lítio e gás

No centro da plataforma de Quiroga está um plano para dar aos bolivianos comuns direitos de propriedade sobre os recursos naturais por meio de um fundo mútuo. O programa abordaria hidrocarbonetos, mineração, gás natural e lítio, um metal necessário para baterias de veículos elétricos.

"O lítio pertencerá a cada cidadão", afirmou Quiroga. "Não para o estado, não para o meu governo, mas para os indivíduos como acionistas."

A Bolívia tem algumas das maiores reservas de lítio e gás natural do mundo, mas a produção diminuiu sob a administração estatal.

As exportações de gás, que antes eram a espinha dorsal da economia, foram reduzidas pela metade na última década, à medida que a produção estagnou.

Enquanto isso, os altos gastos do governo e a inflação crescente esticaram as reservas de moeda forte do país.

Agenda de reformas e cenário político

A plataforma de Quiroga defende reformas significativas na política de hidrocarbonetos, tributação e mineração, bem como uma reestruturação dos direitos de propriedade. Ele descreve a estratégia como uma forma de descentralizar a riqueza e permitir que os cidadãos tenham voz direta na gestão de recursos.

Os críticos acreditam que a ideia corre o risco de alienar a maioria indígena da Bolívia, que sempre desconfiou de candidatos conservadores.

Quiroga concorreu à presidência várias vezes, mas nunca chegou ao segundo turno até agora. O ex-presidente Evo Morales o derrotou duas vezes, e suas ideias esquerdistas dominaram o cenário político e econômico da Bolívia por quase duas décadas.

"Este segundo turno é uma oportunidade para os bolivianos julgarem quem tem capacidade, credibilidade e força para realizar a mudança dramática de que a Bolívia precisa", disse Quiroga a repórteres.

Pragmatismo nas relações com os EUA

O discurso de Quiroga inclui uma mudança na política externa. Ele indicou a disposição de consertar as relações com Washington, que permaneceram apertadas à medida que a Bolívia fortaleceu as relações com a China, o Irã e a Rússia nos últimos anos.

"Não terei alinhamentos ideológicos de qualquer tipo", declarou ele, explicando sua abordagem pragmática da diplomacia. Embora Quiroga tenha expressado apoio a um possível acordo de livre comércio com os Estados Unidos, ele observou que tal acordo poderia estar fora de alcance sob o governo Trump.

A perspectiva de laços mais profundos com Washington pode marcar uma mudança estratégica significativa para a Bolívia, cujos laços comerciais e de investimento têm sido tradicionalmente orientados para aliados não ocidentais.

Confrontando o legado de Morales

Quiroga também afirmou que tomaria medidas legais contra Morales, que enfrenta acusações de abuso infantil e terrorismo, que ele nega serem politicamente motivadas.

"Ele enfrenta acusações genuínas. " Comigo, o estado de direito se aplica", afirmou Quiroga.

Para os eleitores, o segundo turno oferece uma opção gritante entre a plataforma democrata-cristã centrista de Paz e as políticas orientadas para o mercado de Quiroga.

Com a expectativa de que ambos os grupos possuam uma supermaioria parlamentar, a decisão pode enviar a Bolívia para um caminho econômico muito divergente.