EUA sinalizam novas medidas de retaliação contra o Brasil antes de discurso de Lula na ONU

EUA sinalizam novas medidas de retaliação contra o Brasil antes de discurso de Lula na ONU
Noris Soto
16 de set. de 2025, 10:45 AM
  • EUA sinalizam novas sanções ao Brasil após condenação de Bolsonaro.
  • Rubio critica o Supremo Tribunal Federal do Brasil como juízes ativistas exagerando.
  • Lula prepara discurso na ONU, promete que soberania nacional não é negociável.

Com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva prestes a abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas na próxima semana em Nova York, os Estados Unidos sinalizam novas medidas de retaliação com base na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em uma entrevista transmitida na terça-feira, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que Washington divulgará novas sanções "na próxima semana" em reação ao que ele descreveu como "opressão judicial" no Brasil.

Sem nomear o ministro Alexandre de Moraes, Rubio acusou um tribunal do STF de tentar apresentar "ações extraterritoriais contra cidadãos americanos".

Os comentários exacerbam um impasse diplomático que vem se formando desde que o Supremo Tribunal Federal do Brasil decidiu contra Bolsonaro por seu papel em um plano de golpe.

As declarações de Rubio ecoam a recente condenação do ex-secretário de Estado de Donald Trump à investigação como uma "caça às bruxas", que ele alertou que resultaria em uma reação dos EUA.

Sanções e tarifas já estão em vigor

Os EUA já sancionaram entidades e nacionais brasileiros. Moraes foi sancionado pelos EUA no início deste ano sob a Lei Magnitsky, que também impõe restrições financeiras, incluindo o bloqueio do acesso a sistemas de pagamento internacionais como Visa e Mastercard.

Os indicados por Bolsonaro Kassio Nunes Marques e André Mendonça, e o ministro Luiz Fux, que votou pela absolvição de Bolsonaro, estavam entre os poucos ministros do STF que não tiveram seus vistos americanos suspensos.

Os produtos brasileiros também sofreram aumento de tarifas nos últimos meses, alguns de até 50%.

A pressão comercial alimentou temores em Brasília de que novas sanções possam atingir outras autoridades ou indústrias.

Citadas pela mídia brasileira, fontes do governo disseram que o governo Lula espera que a próxima série de medidas traga sanções pessoais a mais membros do STF ou funcionários relacionados ao caso do golpe.

Rubio critica o alcance excessivo do judiciário

Em seus comentários, Rubio condenou a condenação de Bolsonaro como "apenas mais um capítulo de uma crescente campanha de opressão judicial" que, segundo ele, vai além das fronteiras do Brasil.

"Você tem esses juízes ativistas, um em particular que não apenas foi atrás de Bolsonaro, mas também tentou fazer reivindicações extraterritoriais até mesmo contra cidadãos americanos, ou contra alguém postando online de dentro dos Estados Unidos", disse Rubio à CNN.

"Portanto, haverá uma resposta dos EUA a isso, e teremos alguns anúncios na próxima semana sobre quais medidas adicionais pretendemos tomar."

O Departamento de Estado divulgou uma transcrição do discurso de Rubio, enfatizando que as críticas refletiam a política oficial.

Brasil recua, Lula prepara discurso na ONU

Washington pode estar mexendo alguns pauzinhos nos bastidores, mas o governo Lula responde que o Brasil não se curvará a forças externas.

A condenação de Bolsonaro e dos outros militares mostrou ao mundo que as instituições brasileiras ainda estão funcionando, disse um membro de seu governo a O Globo.

O termo ocorre até mesmo em um discurso brasileiro, quando Lula usou a frase "chantagem tarifária" para se referir às políticas comerciais dos EUA em uma conversa com os BRICS na semana passada.

Espera-se que ele utilize esse argumento ao se dirigir à Assembleia das Nações Unidas, que presidiu ao longo de seus três mandatos como presidente.

Em um artigo de opinião publicado no domingo no The New York Times, Lula conseguiu parecer sincero e desafiador. Ele afirmou que o Brasil "está disponível para negociar o que for de interesse comum", mas ressaltou que "a democracia e a soberania do Brasil não são negociáveis".

Ele se referiu à decisão do STF como "histórica" e protetora do Estado Democrático de Direito.

Comércio e clima pairam sobre a semana da ONU

A visita de Lula a Nova York tem maior significado, especialmente à luz do momento do confronto.

Ou seja, além da Assembleia, ele vai à Cúpula do Clima da ONU em 24 de setembro, onde os países anunciarão metas renovadas para as emissões e seus planos de adaptação.

O Brasil, que tem a cidade-sede da COP30, Belém, em novembro, quer ser um ator central da diplomacia climática.

Autoridades de Brasília dizem que novas sanções dos EUA, particularmente contra o agronegócio que está ligado às importações de fertilizantes russos, podem prejudicar os esforços de Lula para projetar liderança em sustentabilidade.

As sanções de Washington contra o Brasil também são semelhantes às medidas anteriores de longo alcance.

Algumas autoridades brasileiras estão preocupadas que as tarifas que Trump impôs à Índia pela importação de petróleo russo possam agora ser aplicadas ao seu país.

Ambos os governos parecem estar presos em uma espiral cada vez maior de pressão e retaliação enquanto Lula se prepara para fazer seu discurso, ameaçando a reputação global do Brasil e o estado das relações Brasil-EUA.