Rio Tinto e Glencore discutem mega-fusão enquanto o boom do cobre atrai mineradores
- Rio Tinto e Glencore confirmam negociações preliminares sobre uma possível fusão totalmente de ações.
- A escassez de cobre e a demanda por transição energética estão impulsionando a renovação da consolidação da mineração.
- Os investidores estão divididos, recebendo a exposição ao cobre, mas desconfiados dos riscos de megafusões.
Rio Tinto e Glencore confirmaram que estão em discussões preliminares sobre um possível acordo que poderia criar a maior empresa de mineração do mundo, com um valor de mercado combinado superior a 200 bilhões de dólares.
As negociações marcam uma nova tentativa de consolidação em um setor que está sendo remodelado pelo aumento da demanda por cobre e outros metais críticos.
Ambas as empresas disseram na sexta-feira que estavam em "discussões preliminares" sobre uma "possível combinação de alguns ou todos os seus negócios, que poderia incluir uma fusão totalmente acionista".
"A expectativa atual das partes é que qualquer transação de fusão seja efetuada por meio da aquisição da Glencore pela Rio Tinto por meio de um esquema de arranjo sancionado pela justiça", disse Rio Tinto em comunicado.
"Não pode haver certeza de que uma oferta será feita ou quanto aos termos de tal oferta, caso seja feita."
O anúncio fez as ações da Glencore subirem quase 9%, levando-as ao nível mais alto desde julho de 2024, enquanto as ações da Rio Tinto caíram acentuadamente, refletindo a cautela dos investidores quanto à escala e complexidade de um possível negócio.
Um retorno dos megaacordos após anos de contenção
As conversas renovadas ressaltam uma mudança de pensamento entre os executivos da mineração, que durante grande parte da última década evitaram grandes aquisições após uma onda de negócios caros durante o boom das commodities impulsionado pela China que deixou investidores com perdas.
Na época, os acionistas pressionavam as mineradoras a priorizarem disciplina de capital, dividendos e recompras de ações em vez da construção de impérios.
Agora, porém, temores de que os pipelines de projetos existentes sejam insuficientes para atender à demanda futura trouxeram a negociação novamente favorável.
Analistas da Jefferies disseram que as discussões entre Rio Tinto e Glencore indicam que as megafusões de mineração estão retornando, impulsionadas por mudanças estruturais na demanda global por metais, e não por picos cíclicos de preços.
Precedentes recentes apoiam essa visão.
Em setembro, a Anglo American, listada em Londres, concluiu uma fusão de 53 bilhões de dólares com a canadense Teck Resources, combinando dois grandes produtores de cobre.
Anteriormente, a proposta de £39 bilhões do BHP Group para a Anglo e a oferta de £16,6 bilhões da Glencore pela Teck foram ambas rejeitadas, destacando o quão disputada se tornou a corrida por ativos de qualidade.
Copper está no centro das negociações
O cobre é amplamente visto como o prêmio estratégico por trás das discussões entre o Rio e o Glencore.
Os preços atingiram um recorde histórico acima de US$ 13.300 por tonelada nesta semana, com analistas alertando para uma possível escassez de suprimentos de até 10 milhões de toneladas até 2040, à medida que a demanda acelera de veículos elétricos, infraestrutura de energia renovável, data centers e inteligência artificial.
A Rio Tinto saiu da indústria do carvão em 2018 e vem buscando reduzir sua dependência do minério de ferro, que representava quase 80% de seus lucros até 2024.
"Uma empresa combinada sem carvão faria a maior parte do seu dinheiro com cobre, seguido pelo minério de ferro e alumínio", disse Jefferies.
Os analistas da Berenberg, Richard Hatch e Jasper Mainwaring, observaram que a Glencore já começou a preparar unidades menos atraentes para possível desinvestimento.
Seus negócios de carvão e ferroligas foram colocados em um veículo separado que poderia ser desmembrado, uma medida que tornaria uma entidade combinada mais atraente do ponto de vista da descarbonização, ao mesmo tempo em que intensificaria seu foco no cobre.
O analista da RBC Capital Markets, Ben Davis, disse que a Glencore vem se promovendo para uma venda há algum tempo.
"Exemplos incluem explorar uma separação de suas unidades menos desejáveis e promover seu potencial de cobre."
A Glencore tem se posicionado como uma empresa em crescimento liderada pelo cobre, com o CEO Gary Nagle dizendo em dezembro que o grupo pretende se tornar o maior produtor mundial de cobre.
Atualmente a sexta maior produtora mundial de cobre e a maior mineradora de carvão listada, a Glencore planeja aumentar a produção por meio de projetos como o desenvolvimento da mina de cobre El Pachón na Argentina.
Se concluídas, essas iniciativas aumentarão sua produção anual de cobre para cerca de 1,6 milhão de toneladas até 2035, quase o dobro dos níveis atuais.
Possíveis estruturas de negócios e obstáculos estratégicos
Várias possíveis estruturas de negócios estão sendo discutidas por analistas, embora todas venham com complicações.
Jefferies sugeriu que uma opção poderia envolver a fusão das operações de minério de ferro e carvão da Rio Tinto e da Glencore em uma entidade listada na Austrália, enquanto abriga metais básicos em uma empresa separada.
Tal estrutura, no entanto, pode ser difícil de executar e suportar um ônus tributário significativo.
Outro cenário é a Glencore se desfazer completamente do negócio de carvão antes de se vender para a Rio Tinto.
O carvão continua sendo um obstáculo importante, dado que o Rio decidiu sair do setor em 2018 como parte de um esforço mais amplo de descarbonização.
Jefferies alertou que a Glencore dificilmente aceitará um acordo sem prêmio, rejeitando a ideia de uma fusão com prêmio zero.
Qualquer aquisição, portanto, precisaria equilibrar o desejo do Rio por crescimento do cobre com as preocupações dos acionistas sobre pagar a mais em um momento em que os preços do cobre estão em níveis recorde.
Davis, da RBC, disse que a combinação desbloquearia valor para os acionistas da Glencore, mas seu negócio de carvão pode ser um obstáculo para qualquer acordo.
A reação dos investidores da Rio Tinto reflete um profundo ceticismo
A resposta imediata do mercado destacou essas preocupações.
As ações da Rio Tinto caíram mais de 6% na Austrália e mais de 2% em Londres.
Hugh Dive, diretor de investimentos da Atlas Funds Management, disse que a venda revelou que os investidores estavam desconfortáveis com o que ele descreveu como uma reviravolta estratégica.
Ele observou que o novo CEO do Rio, Simon Trott, havia prometido recentemente manter o negócio simples, apenas para agora buscar uma aquisição complexa e arriscada.
Embora apoie uma maior exposição ao cobre, Dive alertou que grandes fusões de mineração têm um histórico ruim, frequentemente atingindo o topo do mercado e se mostrando diluída ao longo do tempo.
Ele traçou paralelos com a fusão BHP-Billiton há duas décadas, argumentando que muitos dos ativos adquiridos acabaram entregando pouco valor.
Outros eram mais ponderados.
Andy Forster, gerente sênior de portfólio da Argo Investments, disse que um acordo poderia fazer sentido se os termos estiverem corretos, embora tenha destacado as diferenças culturais como um risco fundamental.
A cultura oportunista e orientada para o trading da Glencore pode entrar em conflito com a abordagem mais operacional da Rio Tinto, mas Forster disse que alguns aspectos dessa mentalidade podem beneficiar o Rio se for gerenciado com cuidado.
A mudança de liderança adiciona outra camada
As negociações ocorrem poucos meses após a Rio Tinto reformular sua equipe de liderança, nomeando Simon Trott como diretor executivo.
Nas primeiras comunicações com a equipe, Trott prometeu mudanças fundamentais, depois delineando planos para reduzir custos e vender ativos.
Sua disposição em explorar uma fusão transformadora tão cedo no cargo surpreendeu alguns investidores.
Um setor em uma encruzilhada
Se as negociações resultarão em um acordo ainda é incerto, mas sua recuperação destaca uma mudança mais ampla na indústria de mineração.
Com novas minas levando anos para serem desenvolvidas e enfrentando desafios de licenciamento e custos, as aquisições oferecem um caminho mais rápido para o crescimento.
Ao mesmo tempo, os riscos de escala, integração e avaliação são enormes.
À medida que a economia global gira para a eletrificação e a infraestrutura digital, a importância estratégica do cobre está remodelando as prioridades das salas de reunião.
Para Rio Tinto e Glencore, a questão é se unir forças pode entregar esse futuro sem repetir os erros do passado.
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