Carney alerta sobre uma 'ruptura' global enquanto tensões na Groenlândia se estendem ao fórum de Davos

Carney alerta sobre uma 'ruptura' global enquanto tensões na Groenlândia se estendem ao fórum de Davos
Ananthu C U
21 de jan. de 2026, 06:38 AM
  • Carney disse que o mundo enfrenta uma "ruptura", não uma transição, já que grandes potências usam comércio e finanças como ferramentas.
  • O Canadá reafirmou seu apoio à Groenlândia, Dinamarca e Otan em meio à pressão dos EUA sobre a ilha ártica.
  • Carney incentivou as potências médias a agirem juntas ou arriscaram ser deixadas de lado em um sistema global mais coercitivo.

O primeiro-ministro canadense Mark Carney alertou que a ordem global do pós-guerra liderada pelos Estados Unidos está se desmoronando, instando as chamadas potências médias a coordenarem sua resposta à medida que a rivalidade entre grandes potências se intensifica.

Falando no Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, Carney enquadrou o momento como uma mudança fundamental na geopolítica, e não como uma interrupção temporária, no contexto das tensões crescentes sobre a Groenlândia e o comércio.

As potências médias enfrentam uma ordem global transformada

Em seu discurso aos líderes políticos e financeiros, Carney disse que o mundo não estava mais operando sob um sistema estável baseado em regras. "Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição", disse ele, argumentando que nações poderosas estão cada vez mais usando ferramentas econômicas como instrumentos de coerção.

"As grandes potências começaram a usar a integração econômica como armas, tarifas como alavanca, infraestrutura financeira como coerção, cadeias de suprimentos como vulnerabilidades a serem exploradas", disse Carney.

Sem nomear diretamente o presidente dos EUA, Donald Trump, as declarações de Carney pareceram direcionadas às ações recentes de Washington, incluindo ameaças de tarifas contra aliados europeus e pressão sobre a Groenlândia.

Ele alertou que potências médias, como o Canadá, não poderiam mais depender de alianças históricas ou da geografia para proteção.

"As potências médias devem agir juntas porque, se não estivermos na mesa, estamos no cardápio", disse Carney. "Grandes potências podem se dar ao luxo de seguir sozinhas. Eles têm o tamanho do mercado, a capacidade militar e a influência para ditar os termos. As potências médias não têm."

Carney acrescentou que países como o Canadá não podem assumir que "a conformidade vai comprar segurança." "Não vai," ele disse.

Canadá, OTAN e Groenlândia

Carney reafirmou o apoio do Canadá à Groenlândia, Dinamarca e à aliança da Otan, recebendo aplausos do público de Davos.

"O Canadá está firmemente ao lado da Groenlândia e da Dinamarca e apoia plenamente seu direito único de determinar o futuro da Groenlândia", disse ele.

"Nosso compromisso com o Artigo Cinco é inabalável", acrescentou Carney, referindo-se à cláusula de defesa coletiva da Otan, que trata um ataque a um membro como um ataque a todos.

Os comentários ocorrem enquanto Trump intensificou a retórica sobre a aquisição da Groenlândia, recusando-se a descartar o uso da força e ameaçando tarifas de até 25% sobre países europeus que apoiarem a Dinamarca.

Quando questionado até onde ele iria ir, Trump disse: "Você vai descobrir."

O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, alertou esta semana que a população da ilha, de cerca de 57.000 habitantes, deve estar preparada para "tudo", inclusive para a força militar, mesmo que isso continue improvável.

As forças armadas dinamarquesas afirmaram que estão fortalecendo sua presença na Groenlândia e no Atlântico Norte.

A mídia canadense também noticiou que Ottawa está considerando enviar um pequeno contingente de tropas para a Groenlândia para exercícios da OTAN.

A ministra das Relações Exteriores do Canadá, Anita Anand, disse que o Canadá "participa regularmente[s] em exercícios da Otan", acrescentando que os futuros destacamentos são decididos por autoridades de defesa.

Coerção econômica e a mudança estratégica do Canadá

Carney disse que o Canadá se beneficiou da antiga ordem internacional, incluindo a "hegemonia americana" que ajudou a fornecer "rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a estruturas para resolver disputas." Esse ambiente, disse ele, está desaparecendo.

"Chame pelo que é: um sistema de intensificação da rivalidade entre grandes potências, onde os mais poderosos perseguem seus interesses usando a integração econômica como coerção", disse Carney.

Desde que entrou na política canadense em 2025, Carney alertou repetidamente que o mundo não voltaria ao status quo pré-Trump.

Ele reiterou essa mensagem em Davos, dizendo que o Canadá agora está focado em se envolver com uma gama mais ampla de parceiros e construir "diferentes coalizões para diferentes questões baseadas em valores e interesses comuns."

Ele apresentou o Canadá como um parceiro "estável e confiável", apontando para acordos recentes de comércio e investimento com China e Catar, bem como para um pacto de aquisição de defesa assinado com a União Europeia no ano passado.

O discurso de Carney ocorreu um dia antes de Trump se dirigir ao fórum, com a reunião de Davos ofuscada por crescentes tensões transatlânticas.

Enquanto os líderes se reuniam na Suíça, a mensagem de Carney era que a adaptação é inevitável — e que as potências médias devem cooperar se quiserem moldar, e não serem moldadas por, a ordem global emergente.