Uma crise hídrica é iminente? Seca na Amazônia levanta alarmes sobre níveis de água, incêndios florestais e segurança alimentar

Uma crise hídrica é iminente? Seca na Amazônia levanta alarmes sobre níveis de água, incêndios florestais e segurança alimentar
Harsh Vardhan
04 de ago. de 2024, 08:17 AM
  • A Bacia Amazônica enfrenta uma seca severa, afetando vários países e exigindo medidas de emergência.
  • A crise climática agrava as condições de seca, levantando preocupações sobre a estabilidade ambiental e a segurança alimentar.
  • Necessidade urgente de práticas sustentáveis e intervenções governamentais para mitigar os impactos a longo prazo.

A Bacia Amazónica está a entrar na estação seca com muitos dos seus rios já em níveis criticamente baixos, levando os governos a antecipar medidas de contingência para fazer face às perturbações da navegação e ao aumento dos incêndios florestais.

Este desenvolvimento destaca as preocupações crescentes sobre a disponibilidade de água e a estabilidade ambiental num dos ecossistemas mais críticos do mundo.

Seca afeta vários países amazônicos

“A Bacia Amazônica enfrenta em 2024 uma das secas mais severas dos últimos anos, com impactos significativos em vários países membros”, afirma nota técnica emitida pela Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA).

Esta organização inclui Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.

A nota enfatizou que em vários rios do sudoeste da Amazônia os níveis de água estão nos níveis mais baixos já registrados para esta época do ano.

Brasil declara escassez de água em grandes bacias

Na segunda-feira, a agência federal de águas do Brasil declarou escassez de água nas bacias do Madeira e do Purus, áreas quase do tamanho do México.

Isto foi seguido pelo estado do Acre declarando uma emergência devido a uma escassez iminente de água em sua principal cidade. Estas medidas, tomadas mais de dois meses antes de 2023, visam aumentar a monitorização, mobilizar recursos e solicitar ajuda federal.

A seca do ano passado resultou em impactos ambientais e humanos significativos, incluindo a morte de golfinhos fluviais e o isolamento de comunidades dependentes do transporte aquático.

Impacto na navegação e nas comunidades locais

A profundidade do rio Madeira, importante curso de água para soja e combustíveis, caiu abaixo de 3 metros perto de Porto Velho em 20 de julho.

Essa mesma profundidade foi alcançada um mês depois, em 2023. A navegação foi restrita durante a noite e há preocupações de que duas das maiores hidrelétricas do Brasil possam interromper a produção, como aconteceu no ano passado.

Em Envira, os rios pouco profundos impediram a navegação, afectando o acesso médico e aumentando os preços dos alimentos.

Aumento dos incêndios florestais

Outra grande preocupação é o aumento dos incêndios florestais.

Houve cerca de 25 mil incêndios de janeiro até o final de julho, o maior número para este período em quase duas décadas. Na Amazônia, as queimadas são principalmente provocadas pelo homem, usadas para manejar pastagens e limpar áreas desmatadas.

Impactos climáticos de longo prazo

A crise climática agravou a seca de 2023, tornando-a uma das piores registadas em muitos locais e atingindo o nível máximo “excepcional” na escala científica.

Descobriu-se que a seca é 30 vezes mais provável devido ao aquecimento global, destacando o grave impacto das mudanças climáticas na Amazônia. O regresso do fenómeno El Niño também contribuiu para condições mais secas, mas não foi o principal factor.

A grave seca na Amazónia levanta preocupações sobre a possibilidade de atingir um ponto de viragem em que a floresta tropical possa transitar para um estado mais seco, resultando numa morte em massa de árvores e na libertação de quantidades significativas de CO2.

Isto poderia aumentar ainda mais as temperaturas globais, tornando crucial proteger a floresta tropical e afastar-se dos combustíveis fósseis.

Repercussões regionais e globais

Milhões de pessoas na Amazónia foram afectadas pela seca, com os rios nos níveis mais baixos em mais de um século, o que levou à escassez de água potável, à quebra de colheitas e a cortes de energia devido à seca das centrais hidroeléctricas.

A seca também agravou os incêndios florestais e levou a altas temperaturas da água, causando a mortalidade em massa da vida ribeirinha.

Os especialistas sublinham a necessidade de intervenções governamentais para apoiar as comunidades na preparação para a intensificação das secas.

O Centro Climático da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho destacou a necessidade de políticas para ajudar as comunidades a se adaptarem às mudanças climáticas.

A destruição em grande escala da floresta tropical para a produção de carne bovina e de soja piorou as condições de seca, uma vez que as terras desmatadas retêm menos água.

Dados recentes indicam que a floresta amazónica está a aproximar-se de um ponto de inflexão, com mais de 75% da floresta intocada a perder estabilidade desde o início da década de 2000.

Riscos globais no abastecimento alimentar

O impacto da seca vai além das preocupações ambientais, afectando o abastecimento alimentar global.

A região amazônica é crítica para as importações de alimentos do Reino Unido, incluindo bananas, abacates, melões e soja para alimentação do gado.

Os efeitos das alterações climáticas sobre os agricultores sul-americanos podem resultar no aumento dos preços dos alimentos e em lacunas nas prateleiras dos supermercados em todo o mundo.

A grave seca na Bacia Amazónica realça a necessidade urgente de esforços concertados para enfrentar as alterações climáticas e proteger este ecossistema vital. Os governos e as organizações devem colaborar para implementar práticas sustentáveis e apoiar as comunidades afectadas para mitigar os impactos a longo prazo no ambiente e na segurança alimentar global.