O caminho para a recuperação: como a Ucrânia planeja reconstruir sua economia
- O PIB da Ucrânia se recuperou em 5,3% em 2023, mas deve desacelerar para um crescimento de 2,5% em 2025.
- A Fitch classifica a Ucrânia como 'RD' devido aos altos déficits orçamentários que chegam a 20% do PIB.
- A reconstrução da Ucrânia exigirá US$ 500 bilhões, sendo que alguns setores serão mais fortes do que outros.
A economia da Ucrânia está passando por um dos períodos mais desafiadores da história moderna europeia.
Quase três anos após a invasão da Rússia, o país ainda enfrenta uma batalha difícil para reconstruir sua economia quando a guerra terminar.
A economia da Ucrânia conseguiu sobreviver e se adaptar.
No entanto, a escassez de mão de obra, a tensão fiscal e o setor energético frágil ainda são obstáculos que precisam ser superados.
Ainda não há certeza de quando a guerra terminará e, o mais importante, como ficará a economia da Ucrânia depois.
Uma história de resiliência econômica
O início da guerra em fevereiro de 2022 desencadeou uma queda econômica.
O PIB da Ucrânia caiu 29,1% em 2022, um dos maiores declínios da história da Europa, impulsionado por cadeias de suprimentos interrompidas, territórios perdidos e infraestrutura destruída.
Mas 2023 surpreendeu muitos analistas, pois o PIB se recuperou com um crescimento de 5,3%, impulsionado pela ajuda internacional, pela adaptabilidade do setor privado e pelos esforços para restaurar a infraestrutura crítica.
O crescimento desacelerou em 2024, com projeções de crescimento do PIB de 4%, impulsionado por gastos com defesa, exportações agrícolas e uma indústria metalúrgica em recuperação.
A OCDE projeta uma desaceleração ainda maior, com o crescimento moderando para 2,5% em 2025 e 2% em 2026, assumindo que a guerra continue.
A escassez de mão de obra e as interrupções logísticas são alguns dos maiores desafios do país.
Empresas se mudaram para o oeste da Ucrânia e alguns setores, como o de TI, prosperaram.
No entanto, os danos estruturais a setores como agricultura e aço deixaram cicatrizes permanentes.
Os vencedores e os perdedores da economia da Ucrânia
A agricultura sofreu com a destruição de terras agrícolas, bloqueios de portos no Mar Negro e interrupção das exportações.
Os embarques de grãos caíram 50% em 2022, embora rotas terrestres alternativas tenham apoiado alguma recuperação.
Entre janeiro e julho de 2024, a agricultura representou 63,1% das exportações, com um modesto crescimento de 7,6% em termos de dólares americanos.
Apesar desses ganhos, o setor enfrenta altos custos de transporte e barreiras ao comércio internacional.
A indústria siderúrgica da Ucrânia sofreu uma queda de mais de 80% em 2022, devido à ocupação de instalações-chave.
Um modesto crescimento de 8% foi registrado em 2023, mas a escassez de energia e os danos à infraestrutura continuam a retardar a recuperação.
O setor de TI da Ucrânia foi um vencedor, gerando US$ 7,3 bilhões em receitas de exportação em 2023.
Iniciativas digitais, como a plataforma Diia do governo, agilizaram os serviços e atraíram investimentos internacionais.
O setor se tornou um pilar econômico fundamental, demonstrando adaptabilidade por meio de operações remotas e realocação.
A energia continua sendo uma vulnerabilidade significativa.
Os ataques com mísseis russos causaram cortes generalizados de energia, deixando os centros urbanos particularmente expostos.
Enquanto a Ucrânia busca soluções de energia renovável e recebe apoio internacional para reparar usinas elétricas, a Agência Internacional de Energia (AIE) alerta que este inverno testará a frágil rede do país.
Fitch afirma uma perspectiva sombria
Em 6 de dezembro, a Fitch reafirmou a classificação de crédito em moeda estrangeira da Ucrânia em 'RD' (calote restrito) e sua classificação em moeda local em 'CCC+'.
O raciocínio por trás dessa classificação é a contínua reestruturação da dívida e as crescentes pressões fiscais decorrentes da guerra.
Apesar dos polêmicos aumentos de impostos durante a guerra pelo governo, incluindo o aumento do imposto de renda pessoal de 1,5% para 5%, a Fitch projeta que os déficits orçamentários permanecerão altos — cerca de 20% do PIB em 2024 e 2025 — à medida que as despesas com defesa continuam a dominar os gastos.
Esses déficits são parcialmente compensados por ajuda externa e empréstimos internos.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) desembolsou US$ 9,8 bilhões sob seu programa atual, com outros US$ 1,1 bilhão aprovados no final de 2024.
No entanto, a Fitch alerta que a queda nas doações estrangeiras e as incertezas em torno da ajuda dos EUA sob o presidente eleito Donald Trump podem desestabilizar ainda mais as finanças públicas.
Escarsezas de mão de obra e participação econômica
A mobilização masculina para o serviço militar deixou muitas empresas com falta de pessoal.
As empresas têm relatado dificuldades no planejamento de exportações devido à incerteza da força de trabalho.
As mulheres assumiram papéis tradicionalmente ocupados por homens, tornando-se a maioria da força de trabalho em setores como saúde, agricultura e educação.
Empreendedoras também lançaram pequenos negócios, com apoio de programas de microcrédito e iniciativas internacionais.
O impacto a longo prazo da escassez de mão de obra na produtividade e na recuperação econômica continua sendo uma preocupação para as perspectivas da Ucrânia.
O papel da ajuda externa
A ajuda internacional tem sido a espinha dorsal da economia ucraniana em tempos de guerra. Aliados ocidentais, liderados pelos Estados Unidos e pela União Europeia, forneceram mais de US$ 300 bilhões em ajuda desde 2022.
Além da assistência militar, fundos como o programa de Resiliência Econômica da IFC de US$ 2 bilhões e o empréstimo de US$ 50 bilhões do G7 têm como alvo a agricultura, as finanças e as telecomunicações.
No entanto, o futuro da ajuda dos EUA sob o presidente eleito Trump é incerto. Parceiros europeus e instituições financeiras internacionais podem precisar intensificar seus esforços se o apoio dos EUA diminuir.
Reconstrução: uma questão de US$ 500 bilhões
Estradas, pontes e moradias em áreas afetadas por conflitos precisam de reparos urgentes.
As recentes negociações de adesão à UE sinalizam progresso em direção ao alinhamento da economia da Ucrânia com os padrões europeus, abrindo caminho para a modernização institucional.
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