Por que Trump está se voltando para a Rússia e o que isso significa para a Ucrânia, a Europa e a China

Por que Trump está se voltando para a Rússia e o que isso significa para a Ucrânia, a Europa e a China
Dionysis Partsinevelos
20 de fev. de 2025, 09:05 AM
  • Trump exclui a Ucrânia das negociações de paz, pressionando Zelenskyy a aceitar um acordo EUA-Rússia.
  • A Europa enfrenta incerteza estratégica à medida que os EUA realinham seus interesses em direção a Moscou.
  • A China teme uma aliança enfraquecida com a Rússia e um maior foco dos EUA na Ásia.

Em 24 de fevereiro de 2022, começou a dramática guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

Três anos depois, o presidente dos EUA, Donald Trump, decidiu pressionar por um acordo de paz com a Rússia, efetivamente excluindo a Ucrânia das negociações.

Ele também chamou o presidente Volodymyr Zelenskyy de "ditador".

Kiev agora se vê em apuros, buscando opções, enquanto os EUA se aproximam da Rússia.

Esses desenvolvimentos estão agora remodelando a ordem global, à medida que a Europa e a China recalculam suas próprias estratégias.

A Ucrânia está sendo forçada à paz?

A mudança de Trump em relação à Rússia transformou a Ucrânia, de um dos principais aliados dos EUA, em um país marginalizado em sua própria guerra.

Os comentários recentes do presidente refletem mais do que apenas retórica.

Ele disse à BBC que a Rússia agora "tem as cartas na mão" nas negociações de paz porque controla grandes partes do território ucraniano.

Trump advertiu Zelenskyy: “Melhor se apressar, ou não lhe restará país nenhum.”

Isso representa uma mudança completa de 180 graus em relação à política anterior dos EUA.

Sob a presidência de Biden, os EUA forneceram US$ 183 bilhões em ajuda militar e econômica à Ucrânia.

Essa tábua de salvação agora é incerta.

Sem as armas, a inteligência e o financiamento dos EUA, a Ucrânia enfrenta uma batalha árdua.

A outra opção da Ucrânia é aceitar um acordo de paz negociado sem sua participação.

Os assessores de Trump, incluindo o conselheiro de Segurança Nacional Mike Waltz, justificaram isso como necessário.

“Você tem que falar com os dois lados”, disse Waltz à Fox News.

Mas “ambos os lados” agora significa os EUA e a Rússia — não a Ucrânia.

Essa exclusão ficou clara durante as recentes negociações de paz entre EUA e Rússia na Arábia Saudita.

Não só a Ucrânia estava ausente, mas também os aliados europeus.

Autoridades russas elogiaram a abordagem de Trump, afirmando que ela se alinhava com a visão de Moscou de que a pressão da Ucrânia pela adesão à OTAN provocou a guerra.

O que está por trás da aproximação de Trump com a Rússia?

A força motriz por trás da abordagem de Trump parece ser a velocidade e a economia.

Ele quer que a guerra termine rapidamente, alegando que apenas sua administração pode alcançar a paz.

Ele também está condicionando o apoio futuro dos EUA à Ucrânia aos interesses comerciais americanos, particularmente ao acesso aos vastos recursos minerais da Ucrânia.

Na semana passada, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, apresentou a Kiev um rascunho de acordo que daria às empresas americanas o controle de metade do valor dos minerais de terras raras da Ucrânia, incluindo lítio, cobalto e titânio.

Esses minerais são essenciais para baterias, sistemas de defesa e tecnologias de energia limpa.

A Ucrânia possui algumas das maiores reservas inexploradas do mundo, avaliadas em centenas de bilhões de dólares, de acordo com o Serviço Geológico Ucraniano.

Zelenskyy rejeitou o acordo, chamando-o de “uma conversa não séria”.

A resposta de Trump foi rápida.

Ele acusou a Ucrânia de quebrar o acordo e sugeriu que Zelenskyy estava prolongando a guerra para manter o "trem da alegria" de ajuda dos EUA.

“Ele está com baixa popularidade nas pesquisas ucranianas reais”, afirmou Trump, embora uma pesquisa de fevereiro de 2025 do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev mostrasse a aprovação de Zelenskyy em 57%.

A perspectiva econômica de Trump vai além dos minerais.

Sua administração insinuou uma cooperação mais ampla com a Rússia. O secretário de Estado Marco Rubio disse que autoridades americanas e russas discutiram “cooperação geopolítica e econômica” durante as conversas em Riad.

Isso poderia incluir mercados de energia, acordos comerciais e controle de armas, com a Ucrânia totalmente marginalizada.

Como a Europa está reagindo?

Para os líderes europeus, a aproximação de Trump com a Rússia parece uma traição. O chanceler alemão Olaf Scholz classificou como “errado e perigoso” questionar a legitimidade democrática de Zelenskyy, observando que as eleições na Ucrânia foram adiadas legalmente sob lei marcial.

O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, alertou que forçar a Ucrânia a capitular significaria “a capitulação de todo o Ocidente”.

A chefe da política externa da União Europeia, Kaja Kallas, expressou preocupação de que “a narrativa russa esteja realmente ganhando terreno”.

Essa tendência mina a frente unida do Ocidente, deixando a Europa exposta.

Os países europeus têm apoiado a Ucrânia com ajuda militar, mas carecem da capacidade industrial para substituir os fornecimentos dos EUA.

França e Reino Unido agora planejam apelar diretamente a Trump por apoio aéreo contínuo.

Sem isso, as defesas da Ucrânia poderiam desmoronar, permitindo que a Rússia consolidasse seus ganhos territoriais.

A exclusão da Europa das negociações de paz também demonstra um enfraquecimento da unidade transatlântica.

As ações de Trump sugerem que ele vê a Rússia como um parceiro potencial, e não como um adversário, deixando a Europa a reconsiderar suas próprias estratégias de segurança.

Espera-se que o presidente francês Emmanuel Macron e o primeiro-ministro britânico Keir Starmer visitem Washington em breve, na esperança de resgatar alguma influência nas negociações.

Qual a posição da China agora?

Outrora posicionada como potencial mediadora da paz, a China agora se vê marginalizada.

Trump havia sugerido anteriormente trabalhar com a China para alavancar sua influência econômica sobre a Rússia.

Mas, com os EUA e a Rússia negociando diretamente, Pequim ficou de fora, levantando questões desconfortáveis para sua liderança.

Xi Jinping passou anos cultivando laços com Putin, vendo a Rússia como um aliado fundamental contra a dominação ocidental.

A China tem sido a tábua de salvação econômica da Rússia durante a guerra, comprando petróleo com desconto e fornecendo bens de uso duplo para sua indústria de defesa.

No entanto, a aproximação de Trump com Moscou ameaça enfraquecer essa parceria.

Keith Kellogg, enviado especial de Trump, declarou abertamente que os EUA pretendem “forçar” Putin a repensar suas alianças com China, Irã e Coreia do Norte.

Embora especialistas duvidem de uma ruptura completa entre Rússia e China, o risco é suficiente para perturbar Pequim.

Yun Sun, especialista em China do Stimson Center, chamou-o de um potencial “Nixon ao contrário”, referindo-se à estratégia dos EUA na década de 1970 para separar a China da União Soviética.

A principal preocupação da China é que, se a Rússia se alinhar mais estreitamente com os EUA, Trump voltará sua atenção para a China.

O Departamento de Defesa dos EUA confirmou isso, afirmando que Washington não pode priorizar a segurança europeia quando precisa “deter uma guerra com a China”.

Pequim agora enfrenta a perspectiva de ser o próximo alvo da pressão dos EUA assim que a questão da Ucrânia for resolvida.

Isso também explica muito sobre a mudança de postura de Trump e seu posicionamento mais "pró-Rússia".

O que acontece depois?

A Ucrânia agora está entre a cruz e a espada. Pode tentar continuar a luta com recursos cada vez menores ou aceitar um acordo de paz moldado por seus adversários.

As coisas parecem melhores para a Rússia. A disposição de Trump em negociar sem a Ucrânia dá a Putin alavancagem para consolidar os ganhos territoriais.

Moscou já saudou a opinião de Trump de que a expansão da OTAN provocou a guerra, uma posição que nenhum presidente americano anterior havia adotado.

A Europa enfrenta seu próprio dilema.

Sem o apoio dos EUA, a capacidade do continente de defender a Ucrânia — e a si próprio — torna-se questionável.

Líderes como Macron e Scholz estão fazendo o possível para manter a unidade transatlântica, mas as ações de Trump sugerem que ele está mais interessado em realinhar os interesses dos EUA em direção à Rússia e se afastar das alianças tradicionais.

A China, por sua vez, está repensando sua estratégia.

Se a Rússia e os EUA encontrarem um terreno comum, Pequim poderá enfrentar uma pressão crescente dos EUA em questões comerciais, tecnológicas e militares.

A parceria cuidadosamente construída por Xi Jinping com Putin agora parece menos estável, levantando questões sobre a estratégia de longo prazo da China.

Até mesmo a própria Ucrânia parece estar repensando suas alianças.

Após meses de envolvimento limitado, Zelenskyy sugeriu que a China poderia desempenhar um papel na pressão sobre Putin para a paz.

“Estamos vendo, eu acho, pela primeira vez, o interesse da China”, disse Zelenskyy após se reunir com o principal diplomata chinês, Wang Yi, na Alemanha.

É uma mudança surpreendente, mas que destaca o quanto o terreno se moveu sob os pés da Ucrânia.