Brasil enfrenta riscos recordes de dívida pública enquanto governo pede consolidação fiscal em meio à alta das taxas de juros

Brasil enfrenta riscos recordes de dívida pública enquanto governo pede consolidação fiscal em meio à alta das taxas de juros
Noris Soto
16 de abr. de 2025, 14:51 PM
  • A sensibilidade da dívida pública brasileira às taxas de juros de curto prazo atingiu um recorde de 62,1%, revelando vulnerabilidades fiscais.
  • O governo propõe um superávit primário de 0,25% do PIB para o próximo ano.
  • Analistas preveem um déficit do PIB de 0,8% no próximo ano, aumentando as preocupações sobre a adequação fiscal.

O governo brasileiro alertou para os riscos crescentes relacionados à renegociação da dívida pública, com um nível recorde projetado para 2025, à medida que uma parcela maior da dívida permanece exposta a taxas de juros de curto prazo.

Em um anexo sobre riscos fiscais ao projeto de lei das diretrizes orçamentárias de 2026, apresentado ao Congresso na terça-feira, o Tesouro estimou que 62,1% da dívida pública federal serão sensíveis a mudanças nas taxas de juros de curto prazo este ano, o nível mais alto desde o início da série de dados em 2008.

O governo enfatizou a necessidade de consolidação fiscal para melhorar a sustentabilidade da dívida.

Sensibilidade sem precedentes à dívida de curto prazo

A figura acima inclui dívidas vinculadas à taxa Selic e títulos com vencimento em até 12 meses, ambos sujeitos a custos de refinanciamento diretamente influenciados pelas taxas de referência.

O Tesouro agora projeta que essa participação permanecerá elevada, atingindo 58,9% em 2028, um aumento acentuado em relação à estimativa anterior de 51,2%, sublinhando a vulnerabilidade do país às pressões fiscais impulsionadas pelas taxas de juros.

A situação gera preocupação porque os preços de refinanciamento dessa dívida são diretamente determinados pelas políticas monetárias do Banco Central do Brasil.

Historicamente, o Brasil financiou grande parte de sua dívida com títulos de taxa flutuante, que são especialmente atraentes para investidores em tempos de volatilidade de mercado.

No entanto, o contexto econômico atual, marcado pelo aumento dos gastos obrigatórios, obrigou o Tesouro a recorrer significativamente a esses instrumentos, resultando na pior composição da dívida do país em 20 anos.

Implicações das políticas do Banco Central para a estabilidade fiscal

A dívida do Brasil está se tornando cada vez mais sensível à medida que o banco central aperta as medidas monetárias para combater a inflação persistente.

A taxa de juros de referência subiu 375 pontos-base desde setembro, para 14,25%, com mais aumentos previstos para maio.

Essas medidas demonstram o compromisso do banco central com a estabilidade de preços, ao mesmo tempo em que contribuem para os problemas fiscais do governo.

Além disso, o reconhecimento pelo governo de que o aumento da dívida de taxa flutuante se deve às incertezas sobre a consolidação fiscal demonstra a relação complexa entre política monetária e finanças públicas.

Sem uma estratégia clara para a estabilidade de longo prazo, o Tesouro pode ter dificuldades em emitir títulos de taxa fixa ou indexados à inflação de longo prazo, exacerbando os problemas de dívida do Brasil.

Apelos à consolidação fiscal: um caminho a seguir?

Em resposta a esses crescentes riscos fiscais, o governo brasileiro propôs um superávit primário de 0,25% do PIB para o ano seguinte — o primeiro objetivo de superávit estabelecido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante seu atual mandato.

Esta proposta visa criar um ambiente mais favorável à consolidação fiscal, permitindo a emissão de dívida a custos mais baixos e, possivelmente, revertendo a trajetória atual do risco de mercado.

No entanto, especialistas financeiros, incluindo os do Banco Itaú, permanecem céticos quanto à adequação da proposta.

O banco argumenta que o ritmo atual de ajuste fiscal é insuficiente para estabilizar a dívida pública, prevendo um déficit provável de 0,8% do PIB.

A disparidade nas perspectivas fiscais entre as estimativas do governo e as expectativas do mercado expõe as frágeis finanças nacionais do Brasil.