Embraer surge como principal vítima na pressão tarifária de Trump no Brasil: eis o porquê

Embraer surge como principal vítima na pressão tarifária de Trump no Brasil: eis o porquê
Noris Soto
10 de jul. de 2025, 11:20 AM
  • A Embraer pode perder até 60% de seus ganhos em 2026 se a tarifa total de 50% dos EUA for aplicada.
  • XP e BBI destacam a Embraer como a empresa brasileira mais exposta às medidas comerciais dos EUA.
  • Analistas alertam para atrasos nas entregas e enfraquecimento da demanda nos segmentos executivo e comercial.

A fabricante aeroespacial brasileira Embraer foi uma das empresas mais expostas às tarifas de 50% anunciadas pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

Dado que mais de 60% de suas vendas vêm do mercado dos EUA, o impacto comercial e operacional dessas tarifas por si só é significativo.

A brasileira Embraer exporta seus modelos de aeronaves comerciais E1 para companhias aéreas norte-americanas e monta e completa seus jatos executivos no estado, incluindo suas linhas Praetor e Phenom.

Essa dependência quase exclusiva dos EUA significa que qualquer eventual tarifa sobre as importações brasileiras pode ter implicações nos custos de produção e na demanda no futuro.

De acordo com analistas da XP Investimentos, a Embraer não encontra "proteção total" em sua estrutura operacional nos EUA contra tarifas de importação.

Embora os jatos sejam montados na Flórida, a maior parte do valor dos jatos vem do Brasil - cerca de 55-60% para Praetors e 35-40% para Phenoms, sujeitando-os à tarifa quando seus componentes cruzam a fronteira.

O impacto dos custos pode reduzir os lucros em mais da metade

De acordo com a XP Investimentos, cada aumento de 10 pontos percentuais nas tarifas pode reduzir o EBIT (Lucro Antes de Juros e Impostos) da Embraer em 2026 em aproximadamente US$ 95 milhões.

Se a tarifa total de 50% for aplicada, espera-se que os ganhos caiam de 55 a 60% em 2026. Essa estimativa leva em consideração os gastos adicionais que a Embraer incorreria como importadora recorde de seus jatos fabricados no Brasil.

A indústria da aviação comercial também enfrenta perigos, embora de um tipo diferente. Embora as companhias aéreas dos EUA sejam tecnicamente obrigadas a pagar tarifas, o ambiente de custos crescentes pode reduzir a demanda.

Atrasos nas entregas podem ocorrer à medida que os compradores repensam ou adiam as compras para evitar taxas. Embora os pagamentos pré-entrega e as restrições contratuais ajudem a compensar alguns riscos, a XP acrescenta que a percepção do mercado ainda pode ter um impacto no desempenho da Embraer.

Apesar de tais riscos, a XP mantém uma recomendação neutra sobre a Embraer, observando preocupações sobre a aplicação da tarifa a longo prazo e a capacidade da empresa de se adaptar a um ambiente em mudança.

No entanto, a empresa alerta que, se as tarifas permanecerem mais altas do que o esperado, as previsões de ganhos de consenso podem precisar ser revisadas para baixo.

A preocupação do mercado aumenta apesar dos esforços de mitigação

O Bradesco BBI aponta a Embraer como o nome mais exposto aos EUA em sua cobertura listada no Brasil, ecoando a XP. Supondo que a tarifa seja imposta em agosto, a empresa estima um impacto de US$ 220 milhões no EBIT de 2025, aproximadamente 35% de sua estimativa para o ano inteiro.

Esta previsão contabiliza apenas o segundo semestre do ano, devido ao calendário de implementação, conforme especificado em documentos oficiais.

Mesmo quando alguns dos jatos executivos da Embraer são montados ou construídos nos EUA, essa cobertura também é parcial e pode limitar a exposição.

Por exemplo, todos os jatos Phenom são construídos nos Estados Unidos, enquanto os Praetors são apenas parcialmente montados lá. De acordo com a mídia local InfoMoney, os analistas acreditam que isso pode reduzir, mas não eliminar, os impactos tarifários.

A guerra BBI também sugere três medidas potenciais de mitigação: aumentar os custos dos jatos em pedidos futuros, aumentar os preços dos serviços e peças e alavancar salvaguardas contratuais no espaço comercial.

No entanto, estas medidas não compensarão totalmente o impacto nos orçamentos públicos a médio prazo.

De acordo com o UBS BB, cada aumento tarifário de 10% poderia reduzir os lucros dos jatos executivos da Embraer em 13% e aumentar os gastos em cerca de US$ 70 milhões.

O estudo sugere que 40% dos jatos Phenom e 60% dos jatos Praetor serão afetados, e que três quartos das vendas de jatos executivos da Embraer são feitas para clientes dos EUA.

Com a turbulência política obscurecendo as relações comerciais Brasil-EUA, os ganhos futuros da Embraer podem depender mais da geopolítica do que da excelência em engenharia.

Os próximos meses podem ser críticos para determinar se o desempenho crescente das ações do fabricante de aeronaves permanece no ar ou encontra turbulências inesperadas.