Desaceleração de Vaca Muerta representa novo desafio para o governo argentino de Milei

Desaceleração de Vaca Muerta representa novo desafio para o governo argentino de Milei
Noris Soto
07 de out. de 2025, 12:02 PM
  • A perfuração e o fracking no xisto de Vaca Muerta, na Argentina, estão desacelerando em meio aos preços mais baixos do petróleo e ao aumento dos custos.
  • A desaceleração ameaça a meta do presidente Javier Milei de dobrar as exportações de energia até 2030.
  • O aumento das despesas com mão de obra e produção está reduzindo os lucros e atrasando novos investimentos.

Na Argentina, a atividade de perfuração e fraturamento hidráulico em Vaca Muerta, a quarta maior reserva de petróleo não convencional do mundo, já está desacelerando após meses de crescimento acelerado.

A desaceleração ocorre à medida que os preços globais do petróleo caem e os custos de produção disparam, colocando em risco uma das principais plataformas econômicas do presidente Javiers Milleis, transformando a Argentina em uma superpotência energética.

Vaca Muerta, localizada na província ocidental de Neuquén, produz 64% do petróleo do país, embora apenas 8% de sua área potencialmente produtiva esteja em desenvolvimento.

O jogo do xisto sustenta o esforço do governo libertário para aumentar as reservas de dólares da Argentina e restaurar a fé no peso com exportações de energia geradoras de dólares.

No entanto, a recente queda na atividade, evidenciada pelo número de poços perfurados e volumes de fracking, está ameaçando o plano da Milei de aumentar as exportações de petróleo e gás para US$ 30 bilhões até 2030, o que dobraria as exportações totais de petróleo e gás da Argentina.

A produção atinge um recorde antes da desaceleração

À medida que Vaca Muerta cresceu, entregou à Argentina sua maior produção de petróleo em uma década.

Impulsionada em grande parte por investimentos significativos de empresas como Chevron, Tecpetrol e TotalEnergies, a produção média nacional atingiu 827.000 barris por dia em agosto, 15% a mais que no ano anterior.

Os analistas estão prevendo que a produção se estabilize nos próximos meses.

Os preços do petróleo caíram para cerca de 65 dólares o barril em comparação com 90 em abril de 2024, reduzindo a margem dos projetos de xisto, que dependem de preços altos para cobrir seus custos relativamente altos.

O número de poços perfurados na Bacia de Neuquén caiu para 55 em julho, ante 67 em junho, o terceiro mês consecutivo em queda, segundo a consultoria argentina AGKC.

Dados divulgados pela empresa de serviços de campos petrolíferos NCS Multistage mostram que os estágios de fracking caíram 9% em julho em comparação com junho.

O aumento dos custos corrói a competitividade

Em uma apresentação em setembro, o secretário de Coordenação de Energia e Mineração da Argentina, Daniel González, afirmou que os custos de produção em Vaca Muerta são atualmente de 35% a 40% maiores do que na Bacia do Permiano, nos Estados Unidos.

Os analistas atribuem o aumento ao aumento das despesas com mão de obra, serviços públicos e serviços, bem como custos de financiamento mais altos.

"O mercado se ajustará e voltaremos a preços mais razoáveis, mas, enquanto isso, os mais eficientes sobreviverão", garantiu González.

As previsões da indústria previam que os estágios de fracking chegariam a 24.000 até 2025, mas o gerente nacional da NCS Multistage, Luciano Fucello, disse que agora é improvável que essa meta seja alcançada.

Ariel Kogan, diretor da AGKC Consultores, acrescentou que muitas empresas estão esperando por uma mudança pós-eleitoral na política cambial antes de investir novamente.

"Nesse nível do dólar, nesse nível da taxa de juros, é melhor manter o barril de petróleo baixo e não extraí-lo", disse Kogan a repórteres.

Pressão sobre os fornecedores e a indústria local

A cadeia de suprimentos industrial da Argentina já está sendo afetada pela desaceleração.

A Delgado Industrias, fornecedora de aço da província de Buenos Aires para o setor petrolífero, viu suas vendas caírem 40% este ano devido à atividade de perfuração mais fraca e à concorrência mais acirrada das exportações chinesas.

A Duralitte, que fabrica componentes de petróleo, gás e mineração, interrompeu os embarques de suas três fábricas argentinas devido à produção mais barata no Brasil e nos Estados Unidos.

A empresa está implorando por impostos mais baixos para ser competitiva, disse o fundador Gustavo Rossi.

Os lucros das vendas de petróleo precificados em dólares, por exemplo, valem menos em moeda local quando o peso se fortalece, uma tendência que os líderes empresariais dizem ter reduzido ainda mais as margens.

Isso levou a pedidos de reforma trabalhista para facilitar a contratação e a demissão.

As empresas buscam estabilidade política

As principais empresas de energia estão pedindo ao governo de Milei que suspenda as restrições cambiais e garanta exportações irrestritas para atrair mais investimentos.

Embora a Milei tenha tomado medidas para aliviar as restrições ao pagamento de dividendos e fornecer incentivos para projetos significativos, a incerteza persiste.

Algumas corporações multinacionais, como a ExxonMobil, venderam ou estão pensando em vender suas propriedades em Vaca Muerta.

Sergio Mengoni, CEO da TotalEnergies Argentina, enfatizou a importância de uma estrutura política estável: "É importante que tenhamos estabilidade e previsibilidade para o futuro e que possamos continuar a suspender os controles cambiais para que empresas como a nossa possam continuar não apenas investindo, mas também distribuindo dividendos".

À medida que a produção se estabiliza e os custos aumentam, o destino de Vaca Muerta e as ambições energéticas mais amplas da Argentina podem ser determinados pela capacidade de Milei de encontrar um equilíbrio entre a disciplina fiscal e as políticas que mantêm vivo o boom do xisto no país.