Desaceleração de Vaca Muerta representa novo desafio para o governo argentino de Milei
- A perfuração e o fracking no xisto de Vaca Muerta, na Argentina, estão desacelerando em meio aos preços mais baixos do petróleo e ao aumento dos custos.
- A desaceleração ameaça a meta do presidente Javier Milei de dobrar as exportações de energia até 2030.
- O aumento das despesas com mão de obra e produção está reduzindo os lucros e atrasando novos investimentos.
Na Argentina, a atividade de perfuração e fraturamento hidráulico em Vaca Muerta, a quarta maior reserva de petróleo não convencional do mundo, já está desacelerando após meses de crescimento acelerado.
A desaceleração ocorre à medida que os preços globais do petróleo caem e os custos de produção disparam, colocando em risco uma das principais plataformas econômicas do presidente Javiers Milleis, transformando a Argentina em uma superpotência energética.
Vaca Muerta, localizada na província ocidental de Neuquén, produz 64% do petróleo do país, embora apenas 8% de sua área potencialmente produtiva esteja em desenvolvimento.
O jogo do xisto sustenta o esforço do governo libertário para aumentar as reservas de dólares da Argentina e restaurar a fé no peso com exportações de energia geradoras de dólares.
No entanto, a recente queda na atividade, evidenciada pelo número de poços perfurados e volumes de fracking, está ameaçando o plano da Milei de aumentar as exportações de petróleo e gás para US$ 30 bilhões até 2030, o que dobraria as exportações totais de petróleo e gás da Argentina.
A produção atinge um recorde antes da desaceleração
À medida que Vaca Muerta cresceu, entregou à Argentina sua maior produção de petróleo em uma década.
Impulsionada em grande parte por investimentos significativos de empresas como Chevron, Tecpetrol e TotalEnergies, a produção média nacional atingiu 827.000 barris por dia em agosto, 15% a mais que no ano anterior.
Os analistas estão prevendo que a produção se estabilize nos próximos meses.
Os preços do petróleo caíram para cerca de 65 dólares o barril em comparação com 90 em abril de 2024, reduzindo a margem dos projetos de xisto, que dependem de preços altos para cobrir seus custos relativamente altos.
O número de poços perfurados na Bacia de Neuquén caiu para 55 em julho, ante 67 em junho, o terceiro mês consecutivo em queda, segundo a consultoria argentina AGKC.
Dados divulgados pela empresa de serviços de campos petrolíferos NCS Multistage mostram que os estágios de fracking caíram 9% em julho em comparação com junho.
O aumento dos custos corrói a competitividade
Em uma apresentação em setembro, o secretário de Coordenação de Energia e Mineração da Argentina, Daniel González, afirmou que os custos de produção em Vaca Muerta são atualmente de 35% a 40% maiores do que na Bacia do Permiano, nos Estados Unidos.
Os analistas atribuem o aumento ao aumento das despesas com mão de obra, serviços públicos e serviços, bem como custos de financiamento mais altos.
"O mercado se ajustará e voltaremos a preços mais razoáveis, mas, enquanto isso, os mais eficientes sobreviverão", garantiu González.
As previsões da indústria previam que os estágios de fracking chegariam a 24.000 até 2025, mas o gerente nacional da NCS Multistage, Luciano Fucello, disse que agora é improvável que essa meta seja alcançada.
Ariel Kogan, diretor da AGKC Consultores, acrescentou que muitas empresas estão esperando por uma mudança pós-eleitoral na política cambial antes de investir novamente.
"Nesse nível do dólar, nesse nível da taxa de juros, é melhor manter o barril de petróleo baixo e não extraí-lo", disse Kogan a repórteres.
Pressão sobre os fornecedores e a indústria local
A cadeia de suprimentos industrial da Argentina já está sendo afetada pela desaceleração.
A Delgado Industrias, fornecedora de aço da província de Buenos Aires para o setor petrolífero, viu suas vendas caírem 40% este ano devido à atividade de perfuração mais fraca e à concorrência mais acirrada das exportações chinesas.
A Duralitte, que fabrica componentes de petróleo, gás e mineração, interrompeu os embarques de suas três fábricas argentinas devido à produção mais barata no Brasil e nos Estados Unidos.
A empresa está implorando por impostos mais baixos para ser competitiva, disse o fundador Gustavo Rossi.
Os lucros das vendas de petróleo precificados em dólares, por exemplo, valem menos em moeda local quando o peso se fortalece, uma tendência que os líderes empresariais dizem ter reduzido ainda mais as margens.
Isso levou a pedidos de reforma trabalhista para facilitar a contratação e a demissão.
As empresas buscam estabilidade política
As principais empresas de energia estão pedindo ao governo de Milei que suspenda as restrições cambiais e garanta exportações irrestritas para atrair mais investimentos.
Embora a Milei tenha tomado medidas para aliviar as restrições ao pagamento de dividendos e fornecer incentivos para projetos significativos, a incerteza persiste.
Algumas corporações multinacionais, como a ExxonMobil, venderam ou estão pensando em vender suas propriedades em Vaca Muerta.
Sergio Mengoni, CEO da TotalEnergies Argentina, enfatizou a importância de uma estrutura política estável: "É importante que tenhamos estabilidade e previsibilidade para o futuro e que possamos continuar a suspender os controles cambiais para que empresas como a nossa possam continuar não apenas investindo, mas também distribuindo dividendos".
À medida que a produção se estabiliza e os custos aumentam, o destino de Vaca Muerta e as ambições energéticas mais amplas da Argentina podem ser determinados pela capacidade de Milei de encontrar um equilíbrio entre a disciplina fiscal e as políticas que mantêm vivo o boom do xisto no país.
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