Por que os EUA sancionaram ex-funcionário da UE, outros 4; O que isso diz sobre a Fenda Tecnológica Transatlântica

Por que os EUA sancionaram ex-funcionário da UE, outros 4; O que isso diz sobre a Fenda Tecnológica Transatlântica
Vatsala Gaur
24 de dez. de 2025, 10:59 AM
  • Os EUA impuseram sanções de visto a figuras europeias ligadas à regulação digital.
  • A Europa condenou a medida como intimidação e um ataque à soberania regulatória.
  • Analistas veem a ação como parte de um impasse mais amplo sobre regulação das grandes tecnológicas e liberdade de expressão.

Os Estados Unidos intensificaram drasticamente seu confronto com a Europa sobre a regulamentação digital, impondo sanções de visto a ex-funcionários da União Europeia e líderes de grupos anti-desinformação, em uma medida que recebeu rápida condenação do outro lado do Atlântico.

As sanções, anunciadas na terça-feira pelo Departamento de Estado dos EUA, têm como alvo um ex-alto funcionário da UE e várias pessoas associadas a organizações que monitoram desinformação online.

A medida reflete a crescente frustração em Washington com os esforços europeus para regular grandes plataformas tecnológicas e conter a influência das grandes empresas de tecnologia, muitas das quais são americanas.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que os indivíduos lideraram "esforços organizados para coagir as plataformas americanas a censurar, desmonetizar e suprimir pontos de vista americanos que elas se opõem", acusando-as de promover o que ele descreveu como censura liderada por estrangeiros à liberdade de expressão e empresas americanas.

"Esses ativistas radicais e ONGs armadas promoveram repressões de censura por parte de países estrangeiros — em cada caso, mirando em palestrantes americanos e empresas americanas", disse Rubio em um comunicado.

Quem são os cinco cidadãos europeus que foram sancionados?

Entre os sancionados está Thierry Breton, ex-comissário europeu que desempenhou papel central na elaboração da Lei de Serviços Digitais da UE, uma lei abrangente que exige que as plataformas online combatam conteúdos ilegais e prejudiciais de forma mais agressiva.

As restrições de visto também se aplicam aos cidadãos britânicos Imran Ahmed, chefe do Centro para Combater ao Ódio Digital, e Clare Melford, que lidera o Índice Global de Desinformação.

Segundo o Telegraph, Ahmed, que está baseado em Washington, agora enfrenta deportação imediata.

As alemãs Anna-Lena von Hodenberg e Josephine Ballon, figuras seniores da Hate Aid, uma organização sem fins lucrativos focada em rastrear desinformação de extrema-direita online, também foram incluídas nas sanções.

Parte de um alerta mais amplo aos aliados

A medida representa o mais recente alerta da administração dos EUA contra a regulamentação europeia das plataformas digitais, que Washington repetidamente apresentou como uma tentativa de censurar discurso e atacar injustamente empresas americanas.

No início deste mês, a plataforma de mídia social X, propriedade de Elon Musk, foi multada em €120 milhões por reguladores da UE por violar regras de moderação de conteúdo, aumentando ainda mais as tensões.

Altos funcionários do governo Trump criticaram tais ações de fiscalização, argumentando que ameaçam a liberdade de expressão e prejudicam os interesses econômicos dos EUA.

O relatório mais recente do Departamento de Estado sobre direitos humanos também acusou vários aliados dos EUA, incluindo Reino Unido, França e Alemanha, de impor "sérias restrições à liberdade de expressão".

Como os líderes europeus reagiram?

Autoridades europeias reagiram rapidamente, enquadrando as sanções como um ataque à supervisão democrática e à independência regulatória.

O presidente francês Emmanuel Macron condenou a medida, descrevendo-a como uma intimidação destinada a enfraquecer a soberania digital da Europa.

"A França condena as medidas de restrição de vistos tomadas pelos Estados Unidos contra Thierry Breton e outras quatro figuras europeias", disse Macron em uma postagem no X.

"Junto com a Comissão Europeia e nossos parceiros europeus, continuaremos a defender nossa soberania digital e nossa autonomia regulatória."

A Comissão Europeia reforçou essas preocupações, dizendo que buscou esclarecimentos junto às autoridades dos EUA e responderia, se necessário, para proteger seu arcabouço regulatório.

Crescente divisão política sobre a liberdade de expressão online

O próprio Breton questionou as motivações por trás das sanções, comparando-as à perseguição política da era da Guerra Fria.

"A caça às bruxas de McCarthy voltou?" escreveu no X, acrescentando que a censura estava sendo mal interpretada. "Para nossos amigos americanos: a censura não está onde vocês pensam que está."

A administração Trump tornou a oposição às regras digitais europeias um tema constante.

O vice-presidente JD Vance criticou repetidamente a UE pelo que chama de ataques à liberdade de expressão e às empresas de tecnologia americanas, argumentando que a regulação digital está sendo usada como arma política.

Tática de negociação ou ruptura mais profunda?

Segundo o Politico, especialistas em políticas de tecnologia dizem que as sanções podem ser menos como medidas punitivas e mais como um sinal de negociação.

Ao mirar indivíduos em vez de impor penalidades econômicas mais amplas, Washington pode estar buscando pressionar reguladores europeus enquanto evita uma disputa comercial em grande escala que poderia prejudicar a economia dos EUA.

Ainda assim, o episódio ressalta a divisão crescente entre os EUA e a Europa sobre como as plataformas online devem ser governadas — e sugere que os conflitos sobre soberania digital, liberdade de expressão e poder corporativo provavelmente se intensificarão nos próximos meses.