Ibovespa despenca com choque energético e dados do PIB testam investidores

Ibovespa despenca com choque energético e dados do PIB testam investidores
Noris Soto
03 de mar. de 2026, 11:20 AM

Enquanto investidores digeriam um novo relatório doméstico de crescimento e um renovado choque energético global, os mercados brasileiros abriram a terça-feira sob intensa pressão, com os futuros sobre o índice de referência indicando uma forte perda.

Logo após as 9h00, o contrato futuro de abril do Ibovespa caía cerca de 2,35%, em 187.885 pontos.

Isso ocorreu no horário de Brasília, indicando uma retirada generalizada de investimentos de maior risco.

Expectativas para inflação, política monetária e o impulso econômico no Brasil estão mudando em função de vários fatores internos e externos.

O que causou a liquidação no mercado?

O gatilho imediato foi um aumento das hostilidades no Oriente Médio que abalou os mercados energéticos globais.

Considerando que o Catar fornece mais de 20% do GNL mundial, a decisão do país de interromper a produção de GNL chama atenção.

O Estreito de Ormuz foi fechado ao tráfego marítimo, segundo um oficial da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, que também advertiu que qualquer embarcação que tentar atravessar pode ser alvo.

O Estreito de Ormuz é um dos principais pontos de estrangulamento energético do mundo.

Qualquer interrupção ao transporte pela região coloca em risco os fluxos globais de petróleo e gás.

O resultado foi alta nos preços do gás natural e do petróleo, fortalecimento do dólar americano e queda das ações mundiais.

Como uma economia emergente significativa, o Brasil é especialmente vulnerável a esse tipo de aversão ao risco global.

Por que o Brasil se preocupa com a alta dos custos de energia?

Tanto no mercado doméstico quanto no internacional, a alta nos preços do petróleo e do gás pode contribuir diretamente para a inflação.

A perspectiva para as taxas de juros no Brasil se complica diante da pressão inflacionária crescente.

Para controlar a alta de preços e ancorar expectativas, o país manteve os custos de financiamento relativamente elevados nos últimos trimestres.

O banco central pode ter mais dificuldade para afrouxar a política monetária se os preços de energia permanecerem elevados.

Além disso, ao encarecer o financiamento externo e estimular saída de capitais, um dólar mais forte aperta as condições financeiras em economias emergentes.

Essa dinâmica costuma afetar moedas locais e ações.

Em resumo, custos de energia mais altos aumentam a probabilidade de inflação persistente e adiam a possibilidade de cortes de juros, ambos prejudiciais para ações.

Que papel têm os números do PIB nesse cenário?

Segundo a mídia local InfoMoney, investidores estavam digerindo estatísticas econômicas do quarto trimestre no plano doméstico.

Em comparação com o trimestre anterior, o PIB do Brasil cresceu 0,1% no último trimestre de 2025.

A economia avançou 2,3% no ano inteiro, conforme esperado.

A quase estagnação no quarto trimestre indica que o ritmo desacelerou ao final do ano, mesmo que o indicador anual aponte ligeira expansão.

Esse arrefecimento alimenta temores de que investimento e consumo estejam sendo prejudicados por juros altos e pela incerteza global.

A combinação de crescimento fraco e risco inflacionário crescente cria um ambiente difícil.

Se as pressões de preços piorarem novamente, os formuladores de política poderão ter menos espaço para estimular a economia.

O que está acontecendo no mundo?

As ações brasileiras estão sob pressão como parte de uma venda global mais ampla.

Em negociações pré-mercado, os futuros dos índices acionários dos EUA recuaram fortemente, com os futuros do Dow Jones caindo cerca de 1,67%, os do Nasdaq em 2,13% e os do S&P 500 em 1,64%.

Depois que os EUA e Israel atacaram o Irã, investidores reavaliam o risco em todas as classes de ativos ao considerar a possível duração e as consequências do conflito no Oriente Médio.

Mercados emergentes como o Brasil costumam ver aumento de volatilidade quando os mercados globais caem simultaneamente.

O que os investidores devem acompanhar a seguir?

Nas próximas sessões, diversos desdobramentos podem influenciar a direção do mercado:

• Os dados de emprego de janeiro do Caged, que devem ser divulgados ainda hoje, podem dar pistas sobre a saúde do mercado de trabalho no início do ano.

• Os resultados da RD Saúde (RADL3) e da Auren (AURE3), previstos para depois do fechamento, revelarão como as empresas estão lidando com juros altos e a volatilidade externa.

• Mais informações vindas do Oriente Médio, especialmente sobre rotas de embarque e infraestrutura energética.

Por ora, a queda do Ibovespa ressalta o quão rapidamente choques globais podem alterar as perspectivas para economias emergentes.

Se a liquidação recente será passageira ou sinalizará um período mais longo de volatilidade para os ativos brasileiros provavelmente dependerá da direção dos preços do petróleo e das projeções de inflação.