A economia da Europa pode se recuperar com cortes de juros e desregulamentação?
- O BCE está cortando as taxas enquanto a incerteza sobre a inflação e a divergência na política dos EUA criam riscos.
- O plano de desregulamentação da UE visa impulsionar os negócios, mas pode enfraquecer os compromissos climáticos.
- As políticas comerciais de Trump e as lacunas de financiamento da Europa podem desafiar ainda mais a recuperação econômica.
A economia da Europa está em dificuldades. O crescimento desacelerou, as empresas estão sobrecarregadas por regulamentações e a inflação continua imprevisível.
Para mudar a situação, o Banco Central Europeu está flexibilizando sua política monetária, enquanto a Comissão Europeia está pressionando por mudanças na política industrial e na desregulamentação.
A questão é se isso será suficiente.
Com os EUA se movendo em uma direção diferente e as tensões comerciais globais aumentando, a estratégia econômica da Europa para 2025 carrega tanto oportunidades quanto sérios riscos.
A redução das taxas de juros ajudará ou prejudicará?
O Banco Central Europeu está reduzindo as taxas novamente, com uma redução de 0,25 ponto percentual esperada em 30 de janeiro, levando a taxa principal para 2,75 por cento.
Os mercados esperam pelo menos mais três cortes neste ano, o que levaria as taxas para 2,00% em meados de 2025 e possivelmente para 1,50% no final do ano.
Taxas de juros mais baixas geralmente incentivam o empréstimo e o investimento, ajudando as empresas a se expandir e os consumidores a gastar.
Mas a situação na Europa não é tão simples. A inflação na zona do euro aumentou por quatro meses consecutivos, impulsionada em parte pelas flutuações nos preços da energia.
Se a inflação permanecer alta, o BCE pode ter que desacelerar ou até mesmo interromper os cortes de juros planejados.
Outra preocupação é a crescente divergência entre o BCE e o Federal Reserve dos EUA.
Enquanto o BCE está cortando as taxas agressivamente, o Fed está se mantendo firme, mantendo as taxas de juros altas.
Essa lacuna na política monetária está pressionando o euro para baixo em relação ao dólar americano.
Um euro mais fraco torna as exportações europeias mais competitivas, mas também aumenta o custo das importações, o que pode alimentar a inflação.
O BCE está andando na corda bamba, tentando apoiar o crescimento sem deixar a inflação sair do controle.
Desregulamentação: impulsionando os negócios ou enfraquecendo as regras verdes?
As empresas europeias há muito reclamam de regulamentações excessivas, argumentando que regras complexas de sustentabilidade e conformidade dificultam a operação.
Em resposta, a Comissão Europeia introduziu o Compasso da Competitividade, um plano para simplificar regulamentações e reduzir a burocracia, potencialmente economizando 37 bilhões de euros por ano para as empresas até 2029.
O plano inclui o relaxamento dos requisitos de relatórios de sustentabilidade, a redução da carga regulatória para empresas de médio porte e a simplificação das leis ambientais e da cadeia de suprimentos.
O objetivo é tornar a Europa um lugar mais atraente para fazer negócios, mas há preocupações de que essas mudanças possam minar os compromissos climáticos da UE.
Grupos ambientais alertam que a desregulamentação pode enfraquecer o Acordo Verde, especialmente se resultar em regras mais flexíveis sobre emissões e responsabilidade corporativa.
Líderes europeus insistem que as metas climáticas permaneçam inalteradas, mas o impulso para o crescimento industrial pode ocorrer às custas de uma supervisão ambiental mais rigorosa.
Ao mesmo tempo, outros líderes europeus, como o AfD da Alemanha e os Patriots for Europe da França, estão pressionando para abandonar completamente o Acordo Verde.
Como a política comercial de Trump afeta a Europa?
O retorno de Donald Trump adicionou outra camada de incerteza às perspectivas econômicas da Europa.
Durante sua presidência, ele insinuou tarifas sobre importações da UE, uma medida que poderia desacelerar o crescimento europeu em um momento em que ele já está em dificuldades.
Se os EUA impuserem restrições comerciais, as indústrias europeias, especialmente as montadoras e fabricantes de aço, poderão sofrer.
Ao mesmo tempo, as políticas de "América em primeiro lugar" de Trump podem levar a um maior fluxo de investimentos dos EUA de volta para as indústrias domésticas, dificultando a concorrência das empresas europeias.
O BCE e a Comissão Europeia podem ter que ajustar suas políticas rapidamente se Trump aumentar as tensões comerciais.
Por enquanto, a ameaça permanece hipotética, mas os formuladores de políticas europeus já estão se preparando para possíveis interrupções.
Por que a economia da Europa ainda está atrasada?
Os problemas econômicos da Europa não começaram com Trump ou com as altas taxas de juros.
O crescimento vem desacelerando há anos.
Um relatório recente do Bruegel, um importante centro de estudos econômicos, argumenta que a estratégia econômica da Europa ainda não é um plano coerente.
A UE ainda luta para equilibrar políticas de energia verde com competitividade industrial, investir em tecnologias de ponta como IA e biotecnologia e fechar as profundas lacunas de financiamento que impedem a reforma econômica.
A política monetária sozinha não resolverá essas fraquezas estruturais.
Reduzir as taxas de juros pode proporcionar alívio temporário, mas sem investimentos mais fortes e uma estratégia industrial mais clara, a Europa corre o risco de ficar ainda mais para trás em relação aos EUA e à China.
Muitas das soluções propostas em relatórios do ex-presidente do BCE, Mario Draghi, e do ex-primeiro-ministro italiano, Enrico Letta, ainda não foram totalmente implementadas, deixando questões críticas sem resposta.
Além disso, a instabilidade econômica e política nas duas maiores economias da região, França e Alemanha, está apenas corroendo a confiança dos investidores nos planos de recuperação da Europa.
E quanto à moradia e ao custo de vida?
A acessibilidade à moradia tornou-se um problema urgente em toda a Europa. Dezesseis por cento da população da UE vive em moradias superlotadas e nove por cento gasta mais de 40 por cento de sua renda com aluguel ou hipotecas.
A Holanda está liderando o movimento para mudanças nas regras da UE para tornar a moradia mais acessível, argumentando que a UE deve classificar a construção de moradias como um "interesse público preeminente", semelhante à energia renovável.
Isso permitiria aprovações de construção mais rápidas e afrouxaria as restrições ambientais que atualmente atrasam os projetos.
O governo holandês também está pedindo mudanças nas regras de auxílio estatal, o que permitiria mais subsídios para moradias da classe média.
A Comissão Europeia reconhece o problema, mas tem agido lentamente, insistindo que quaisquer mudanças devem ser avaliadas caso a caso.
Sem uma reforma significativa, a crise habitacional continuará a colocar pressão financeira sobre as famílias europeias, tornando a recuperação econômica ainda mais difícil.
Um risco necessário
A Europa está adotando uma abordagem ousada, cortando as taxas de juros e flexibilizando as regulamentações, em uma tentativa de reanimar o crescimento.
O BCE espera que o empréstimo mais barato incentive o investimento e o consumo, enquanto a Comissão Europeia tenta facilitar a operação das empresas.
Os riscos, no entanto, são significativos. A inflação continua incerta, a diferença entre a política monetária dos EUA e da Europa está aumentando e as políticas comerciais de Trump podem criar novos choques econômicos.
Sem estratégias de investimento claras e financiamento adequado, a economia da UE pode continuar a enfrentar dificuldades.
Por enquanto, os formuladores de políticas europeus estão apostando nessas mudanças para reacender o crescimento.
Resta saber se essa aposta dará frutos ou se criará novos problemas.
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