O choque eleitoral na Alemanha: principais resultados, implicações e o que vem a seguir

O choque eleitoral na Alemanha: principais resultados, implicações e o que vem a seguir
Dionysis Partsinevelos
26 de fev. de 2025, 04:43 AM
  • A CDU/CSU venceu com 28,5%, mas precisa formar uma coalizão para governar.
  • Desafios econômicos, uma população envelhecida e altos impostos ameaçam o crescimento e a estabilidade.
  • A Alemanha enfrenta incertezas com o enfraquecimento dos laços com os EUA e o futuro da OTAN ainda incerto.

Friedrich Merz está prestes a se tornar o próximo chanceler da Alemanha, mas sua vitória pode não trazer a estabilidade que muitos eleitores esperavam.

As eleições de 2025 marcam um ponto de virada importante para a Alemanha, com uma forte guinada à direita e o colapso do centro-esquerda.

Embora a CDU/CSU de Merz tenha obtido a maioria dos votos, ficou aquém da maioria absoluta, complicando o caminho para uma governança estável.

O partido de extrema-direita AfD ascendeu ao segundo lugar, tornando a formação de uma coalizão ainda mais desafiadora. Enquanto isso, a estagnação econômica, o envelhecimento da população e as crescentes tensões com os EUA representam obstáculos significativos para o próximo governo.

A Alemanha há muito tempo é vista como o pilar da estabilidade na Europa, mas essa reputação agora enfrenta sérias incertezas.

Os eleitores realmente obtiveram a mudança que desejavam?

A mensagem dos eleitores foi clara: eles queriam mudança.

A participação foi de 84%, a mais alta desde 1990, o que mostra o quanto as pessoas se importaram com esta eleição.

Mas os resultados contam uma história mais complexa.

A CDU/CSU venceu com 28,5%, uma vantagem confortável, mas longe da maioria.

O SPD, que liderou o governo anterior, sofreu sua pior derrota desde 1890, com apenas 16,4%.

Os Verdes mantiveram-se estáveis em 11,6%, enquanto o FDP desmoronou, não conseguindo atingir o limiar de 5% para permanecer no parlamento.

O grande vencedor foi o AfD. Eles dobraram seu apoio em 2021, garantindo 20,8% e se tornando o segundo maior partido da Alemanha.

Seu sucesso foi maior no Leste, onde muitos eleitores se sentiam deixados de lado pelas políticas de Berlim.

Os eleitores mais jovens (18-24 anos) também se inclinaram para os extremos políticos, favorecendo o AfD à direita e o Partido da Esquerda no extremo oposto, enquanto partidos tradicionais como a CDU e o SPD lutavam para atrair o apoio da juventude.

No entanto, esta eleição não produziu um mandato claro.

A CDU/CSU agora enfrenta a difícil tarefa de formar um governo, mas suas opções são limitadas.

Uma dor de cabeça para Merz na coalizão

Ao contrário de outros países europeus, a Alemanha não permite governos minoritários.

Isso significa que Merz precisa de um parceiro de coalizão para governar.

O sistema alemão exige maioria no Bundestag (50% + 1 assento) para que um chanceler seja eleito e leis sejam aprovadas, portanto, os partidos devem negociar coalizões quando nenhum partido obtém vitória absoluta.

A CDU/CSU descartou trabalhar com a AfD, citando grandes divergências sobre a OTAN, o euro e a política externa.

Isso deixa o SPD ou os Verdes como os únicos parceiros realistas.

Ambos estão relutantes, especialmente porque as políticas de Merz sobre desregulamentação, imigração e cortes de impostos conflitam com suas agendas.

O SPD ainda está se recuperando de seu pior resultado na história moderna e há chances de que eles não queiram entrar no governo de forma alguma.

Alguns líderes partidários sugeriram deixar seus membros votarem em qualquer acordo de coalizão, o que complica ainda mais as coisas.

Se nenhum acordo for alcançado, a Alemanha poderá enfrentar uma paralisia política prolongada.

Quanto mais tempo demorar para formar um governo, mais fraca será a confiança, tanto interna quanto externa.

A Alemanha consegue consertar sua economia?

Além da política, o maior desafio da Alemanha é sua economia.

O país já enfrenta dois anos de contração econômica, sem nenhuma recuperação real à vista.

As previsões de crescimento são sombrias. O Conselho Alemão de Especialistas Econômicos prevê um crescimento potencial de apenas 0,3% a 0,4% ao ano para o restante da década, muito abaixo da média de 1,4% de 2000 a 2019.

A principal razão é que a população alemã está envelhecendo rapidamente.

Nos próximos quatro anos, 5,2 milhões de alemães se aposentarão, enquanto apenas 3,1 milhões de jovens trabalhadores ingressarão no mercado de trabalho.

Esse desequilíbrio reduzirá a força de trabalho, aumentará os custos com pensões e pressionará o orçamento federal.

Enquanto isso, o aumento dos custos de saúde e as altas contribuições para a seguridade social, que já atingem 42% da renda bruta, estão dificultando a vida das empresas e dos trabalhadores.

Merz prometeu uma “Agenda 2030” para revitalizar a economia por meio de cortes de impostos, desregulamentação e incentivos para que trabalhadores mais velhos permaneçam empregados.

Mas como ele planeja financiar essas políticas permanece incerto, especialmente com um parceiro de coalizão provavelmente se opondo às suas ideias mais conservadoras.

A Alemanha está se voltando contra os EUA?

Os desafios políticos e econômicos da Alemanha estão ocorrendo em um momento em que seu relacionamento com os EUA está se deteriorando.

Merz deixou claro que considera a segurança europeia uma prioridade máxima.

Após o retorno de Donald Trump à Casa Branca, Merz alertou que o compromisso de Washington com a OTAN não está mais garantido, dizendo:

“América Primeiro pode significar América sozinha.”

Merz acredita que a Alemanha e a UE podem precisar reforçar suas capacidades de defesa, especialmente agora que Trump está se aproximando da Rússia.

Isso é muito importante para a Alemanha.

Desde a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha tem dependido das garantias de segurança dos EUA. Se isso mudar, a Alemanha poderá ter que aumentar seus gastos com defesa além dos compromissos atuais com a Ucrânia (28 bilhões de euros até agora) e a OTAN.

Isso colocaria ainda mais pressão sobre um orçamento já apertado.

Enquanto isso, as tensões comerciais com os EUA também podem complicar a recuperação econômica da Alemanha.

Políticas protecionistas de ambos os lados ameaçam as exportações alemãs, particularmente nos setores manufatureiro e automotivo.

O que vem a seguir para a Alemanha?

Os resultados das eleições na Alemanha mostraram claramente que os eleitores querem mudança.

A CDU/CSU venceu, mas seu caminho para formar um governo está longe de ser certo.

A economia está desacelerando, e as mudanças demográficas tornarão o crescimento mais difícil de sustentar.

Enquanto isso, as relações com os EUA estão evoluindo de maneiras que podem forçar a Alemanha a assumir novas responsabilidades para as quais não está totalmente preparada.

Por enquanto, o maior risco não é apenas a estagnação econômica ou o impasse político, mas a perda de confiança.

Se o novo governo não conseguir atender às expectativas dos eleitores, partidos extremistas como o AfD poderão se fortalecer ainda mais nas próximas eleições.

Especialistas acreditam que a Alemanha enfrenta seu maior desafio desde a reunificação.