Crise global do café se agrava com preços disparando, interrompendo cadeias de suprimentos e abalando a indústria.

Crise global do café se agrava com preços disparando, interrompendo cadeias de suprimentos e abalando a indústria.
Diya Poddar
08 de mar. de 2025, 02:35 AM
  • Torrefadores enfrentam dificuldades de fluxo de caixa, pois os compradores resistem aos aumentos de preços, limitando as vendas de café.
  • Os armazéns de café dos EUA estão meio vazios, levando ao fechamento e à consolidação de depósitos.
  • Alguns analistas preveem uma queda de 30% nos preços se a colheita do Brasil em 2025 se recuperar.

O comércio global de café enfrenta uma crise sem precedentes, com a alta dos preços interrompendo as cadeias de suprimentos e forçando as torrefadoras a reduzir as compras.

Um aumento de 70% nos contratos futuros de café arábica desde novembro deixou traders, torrefadores e varejistas lidando com a incerteza, com compradores relutantes em se comprometer com grandes pedidos.

A situação levou os principais players a repensarem suas estratégias, já que os armazéns de café permanecem com estoques baixos e as negociações com os varejistas estão paralisadas.

Na convenção anual da Associação Nacional de Café dos EUA em Houston esta semana, comerciantes e torrefadores alertaram que a escassez de oferta pode ter consequências duradouras para o setor.

Embora preços mais altos geralmente indiquem lucratividade para os produtores de café, desta vez, os compradores hesitam em absorver os custos, limitando o fluxo de café pelas cadeias de suprimentos.

Líderes do setor agora enfrentam escolhas difíceis ao avaliar o impacto da volatilidade prolongada nos mercados globais de café.

Varejistas reagem à redução de compras por parte das torrefadoras

Torrefadores de café em todo o mundo estão reduzindo seus volumes de compra, com alguns incapazes de vender sua produção anual esperada.

Renan Chueiri, diretor-geral da ELCAFE CA do Equador, observou que sua empresa vendeu apenas 30% da produção projetada este ano — uma situação sem precedentes.

Muitos compradores, disse ele, estão com dificuldades de liquidez e não conseguem comprar pelos preços atuais.

Os varejistas também estão resistindo aos aumentos de preços, dificultando para os torrefadores repassar os custos mais altos. Alguns supermercados e mercearias estão adiando as negociações, o que leva à escassez nas prateleiras.

Um executivo de torrefação baseado nos EUA disse que alguns de seus clientes temem não conseguir vender café pelos novos preços, o que os obriga a reconsiderar seus modelos de negócios.

Em resposta à crise, os operadores estão adotando estratégias cautelosas.

Os negócios no Brasil, o maior produtor mundial de café, agora são conduzidos sob termos mais rigorosos.

Os compradores só pagam após verificar a qualidade dos grãos no local, uma mudança que ressalta o aumento do risco no mercado.

Essa abordagem conservadora desacelerou as transações e pressionou ainda mais o fluxo de caixa em toda a cadeia de suprimentos.

Escassez de suprimentos força fechamento de armazéns

A escassez de oferta é evidente nos principais centros de armazenamento de café nos EUA, onde os armazéns próximos aos portos estão operando com metade da capacidade usual.

Um executivo de uma das maiores empresas de armazenamento observou que algumas companhias estão devolvendo silos aos seus proprietários e rescindindo contratos de arrendamento antecipadamente devido à falta de estoque. Isso sinaliza uma grave crise de oferta que pode persistir a menos que a produção se recupere significativamente.

Com os pequenos comerciantes lutando contra restrições de financiamento, a consolidação do setor está se acelerando. Empresas maiores, com reservas de capital mais profundas, estão preparadas para expandir sua participação de mercado, enquanto empresas menores podem ser forçadas a sair do setor.

Michael Von Luehrte, proprietário da corretora MVLcoffee, espera que as empresas de negociação com maiores recursos financeiros aumentem seus volumes, enquanto aquelas com acesso limitado ao crédito podem ter dificuldades para se manterem à tona.

A colheita brasileira pode acabar com a alta de preços.

Apesar da crise atual, alguns analistas preveem que os preços do café arábica podem cair 30% até o final do ano.

Uma pesquisa recente da Reuters sugere que a destruição da demanda devido aos altos preços e uma colheita potencialmente forte no Brasil em 2025 podem estabilizar o mercado.

A expansão das plantações de café no Brasil, na Índia, em Uganda e na Etiópia pode contribuir ainda mais para a recuperação da oferta, potencialmente revertendo o aumento de preços.

O negociador de commodities Louis Dreyfus destacou que uma colheita abundante no Brasil, combinada com novos esforços de plantio, poderia levar a um colapso de preços.

No entanto, isso depende de condições climáticas favoráveis e de investimentos contínuos nas regiões produtoras de café.