Juiz dos EUA impede temporariamente a Argentina de entregar participação da YPF em julgamento de US$ 16,1 bilhões

Juiz dos EUA impede temporariamente a Argentina de entregar participação da YPF em julgamento de US$ 16,1 bilhões
Noris Soto
14 de jul. de 2025, 14:43 PM
  • Juiz dos EUA atrasa giro de ações da YPF da Argentina, concedendo tempo para apelação em caso de US$ 16,1 bilhões.
  • A Argentina adverte que a perda da participação da YPF prejudicaria a soberania e desestabilizaria sua frágil economia.
  • A batalha legal testa os limites do poder judicial dos EUA sobre ativos estrangeiros sob as leis de imunidade soberana.

Como parte de uma batalha legal de US$ 16,1 bilhões, um juiz federal dos EUA concedeu à Argentina uma suspensão temporária da transferência de sua participação majoritária na YPF, a maior empresa de energia do país.

A sentença, emitida na segunda-feira pela juíza distrital dos EUA Loretta Preska em Manhattan, adia a execução de uma ordem anterior que obrigaria a Argentina a vender sua participação de 51% na YPF até 15 de julho. A nova data é 17 de julho, dando ao governo tempo para apelar do veredicto.

A questão se origina da nacionalização da YPF pela Argentina em 2012, na qual o Estado expropriou ações da petrolífera espanhola Repsol sem primeiro fazer uma oferta pública a outros acionistas.

A mudança gerou ações legais da Petersen Energia Inversora e da Eton Park Capital Management, ambas acionistas minoritárias na época.

A Burford Capital, uma financiadora de litígios com sede nos Estados Unidos, agora representa esses interesses e pode se beneficiar significativamente de qualquer recuperação.

Em setembro de 2023, os demandantes venceram, com o juiz Preska ordenando que a Argentina pagasse a Petersen US$ 14,39 bilhões e a Eton Park US$ 1,71 bilhão.

No entanto, a Argentina ainda não cumpriu a decisão, alegando intenção de apelar e proteções da Lei de Imunidades Soberanas Estrangeiras (FSIA) dos Estados Unidos.

Os demandantes afirmam que a persistente evasão de pagamento da Argentina e a natureza comercial da ordem judicial de compra de participação da YPF implicaram em uma rotatividade ordenada pelo tribunal.

No entanto, o governo argentino argumenta que uma transferência vinculativa da YPF violaria o direito internacional, dificultaria as relações diplomáticas e violaria a inviolabilidade de sua soberania.

Em sua defesa, a Argentina fez comparações severas, sugerindo que, se a decisão fosse seguida, um tribunal estrangeiro poderia forçar os EUA a repatriar seu ouro para resolver um mal-entendido legal.

A alegação oficial é que as ações da YPF do governo são essenciais para preservar seu controle sobre os ativos energéticos nacionais e devem ser seguras.

Implicações econômicas em uma crise

A decisão ocorre em um momento crítico para a Argentina, cuja economia está sob forte pressão. O governo do presidente Javier Milei está implementando uma reforma econômica completa, com o objetivo de estabilizar a inflação, reduzir os gastos do governo e reconstruir as reservas estrangeiras.

Desistir de sua participação controladora na YPF pode comprometer esses esforços, reduzindo o controle sobre um ativo importante gerador de receita.

A participação da YPF é mais do que simplesmente simbólica; é um componente prático da estratégia geral da Argentina para gerenciar seu setor de energia e atrair investimentos.

A entrega das ações, mesmo que temporariamente, pode causar incerteza no mercado e dissuadir o investimento estrangeiro. A Argentina alertou que tal passo pode ser permanente, mesmo que mais tarde ganhe seu recurso.

Riscos legais além das fronteiras

O caso pode até repercutir fora da angústia econômica da Argentina, afetando a maneira como os tribunais dos EUA lidam com disputas em que nações soberanas e empresas estatais se chocam.

Tal apreensão das ações da YPF pode desencadear uma nova linha de ações judiciais nas quais os tribunais americanos forçam nações estrangeiras a ceder interesses nacionais vitais para pagar por danos.

O cerne do recurso é a interpretação da FSIA, que, em geral, protege as nações estrangeiras dos tribunais dos EUA, a menos que certas exceções se apliquem.

Uma dessas exceções será o ponto crucial na decisão de execução extraterritorial de sentenças contra soberanos.

A data de entrega foi prorrogada até 17 de julho, e a Argentina continuará seus recursos nos tribunais dos EUA. O alívio temporário dá ao governo Milei algum espaço para respirar, mas as questões legais e orçamentárias fundamentais permanecem sem solução.

Como os investidores monitoram de perto o futuro da YPF e a direção econômica da Argentina, a decisão deste processo tem o potencial de impactar o clima de investimento para os mercados emergentes, bem como desafiar os limites da imunidade soberana no direito internacional.