Preços na porta da fábrica no Brasil caem em fevereiro; alimentos e combustíveis puxam a deflação

Preços na porta da fábrica no Brasil caem em fevereiro; alimentos e combustíveis puxam a deflação
Noris Soto
31 de mar. de 2026, 14:11 PM
  • IPP do Brasil cai 0,25% em fev., ampliando a deflação na porta da fábrica.
  • Alimentos, combustíveis e produtos químicos puxam os preços para baixo; metais e máquinas registram ganhos.
  • IPP anual cai 4,47%, sinalizando pressões inflacionárias a montante contidas.

Os preços ao produtor da indústria brasileira recuaram em fevereiro de 2026, refletindo fraqueza persistente em setores-chave e ampliando uma tendência deflacionária na porta da fábrica.

O Índice de Preços ao Produtor (IPP) para a indústria de transformação e extrativa caiu 0,25% mês a mês em fevereiro, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Treze das vinte e quatro atividades industriais registraram preços inferiores aos de janeiro, indicando uma queda de caráter amplo.

Na comparação em 12 meses, o índice recuou 4,47%, um pouco mais intenso que a queda de 4,35% de janeiro, indicando que os preços ao produtor permanecem em contração.

No entanto, à exceção de uma ligeira alta de 0,07%, os preços têm se mantido relativamente estáveis até agora no ano.

O IPP mede os preços na porta da fábrica, excluindo impostos e frete, sendo um indicador-chave das pressões de custo na cadeia de produção antes de os bens chegarem ao consumidor.

Por que os preços industriais estão caindo

Setores-chave, incluindo alimentos, refino de petróleo e produtos químicos, foram os principais responsáveis pela queda de fevereiro, exercendo forte pressão de baixa sobre o índice.

A indústria de alimentos foi o maior peso negativo, subtraindo 0,21 ponto percentual da queda total de 0,25%.

Os preços do setor recuaram 0,87% em fevereiro, marcando a décima queda mensal consecutiva.

De forma similar, os preços de refino de petróleo e biocombustíveis caíram 0,50% em fevereiro, contribuindo para uma queda anual de 10,22%.

Outros produtos químicos também registraram queda de 0,26% no mês e estão 8,29% inferiores em 12 meses.

Essas quedas refletem uma combinação de alívio nos custos de insumos, tendências de preços globais e ajustes específicos de cada setor.

Em particular, os preços de produtos químicos se moderaram após o arrefecimento de choques de custo anteriores, especialmente nos insumos de fertilizantes.

Setores que mostram resiliência

Apesar da fraqueza generalizada, alguns setores registraram altas de preços notáveis, compensando parcialmente a queda.

Máquinas e equipamentos elétricos registraram alta de 1,73% em fevereiro, enquanto perfumes, sabonetes e produtos de limpeza subiram 1,44%.

A metalurgia avançou 1,41% e os preços de vestuário subiram 1,32%.

A metalurgia teve contribuição relevante para o índice mensal, acrescentando 0,10 ponto percentual.

Metais não ferrosos, em especial o ouro, registraram altas impulsionadas por demanda global mais forte. Ao mesmo tempo, custos de insumos mais elevados, incluindo o cobre, sustentaram ganhos contínuos em máquinas e equipamentos elétricos, que registraram o sexto aumento mensal consecutivo.

Desagregação por categorias econômicas

Uma desagregação do IPP por grandes categorias econômicas mostra que as quedas concentraram-se em bens de capital e bens intermediários.

Os preços de bens de capital caíram 1,29% em fevereiro, enquanto bens intermediários recuaram 0,25% e bens de consumo registraram queda de 0,03%.

Os bens intermediários, que têm o maior peso no índice (53,77%), tiveram o maior impacto, contribuindo com 0,13 ponto percentual para a queda total.

Em 12 meses, os bens intermediários também lideraram a deflação, caindo 6,73%, contra quedas de 1,08% para bens de capital e 1,83% para bens de consumo.

Dentro de bens de consumo, o desempenho foi divergente.

Os preços de bens duráveis subiram 1,57%, enquanto semiduráveis e não duráveis caíram 2,48%, evidenciando condições de demanda desiguais entre os segmentos.

Tendências por indústrias-chave

Diversas indústrias ilustram as dinâmicas mais amplas que moldam as tendências de preços industriais no Brasil.

As indústrias extrativas caíram 0,61% em fevereiro, mas permanecem ligeiramente positivas no acumulado do ano, com alta de 0,78%. Em 12 meses, contudo, os preços estão 9,35% menores, refletindo alinhamento com os mercados globais de commodities. O petróleo bruto forneceu algum suporte, ajudando a limitar quedas mais profundas.

A produção de alimentos continua a experimentar quedas sustentadas de preços, embora alguns itens, como leite e carne bovina, tenham registrado altas devido a custos e demanda mais elevados. Em contraste, os preços do açúcar recuaram em linha com as tendências do mercado global e estratégias de desconto.

Refino de petróleo e biocombustíveis permanecem sob pressão significativa, com quedas anuais superiores a 10%, figurando entre os setores mais deflacionários.

O setor de veículos automotores, um importante segmento industrial, teve preços em queda de 0,68% em fevereiro, revertendo ganhos anteriores e indicando um arrefecimento do ímpeto.

O que a tendência anual mostra

A tendência mais ampla evidencia uma deflação persistente no setor industrial brasileiro.

A queda anual de 4,47% nos preços ao produtor foi amplamente impulsionada por um pequeno conjunto de setores.

Alimentos foram responsáveis por uma pressão negativa de 2,53 pontos percentuais no índice, seguidos por refino de petróleo e biocombustíveis com 1,05 ponto percentual, outros produtos químicos com 0,68 ponto percentual e indústrias extrativas com 0,43 ponto percentual.

Juntos, esses setores explicam a maior parte da pressão de baixa.

Ao mesmo tempo, alguns setores registraram fortes altas anuais. A impressão, por exemplo, subiu 19,34%, ressaltando a divergência entre os setores.

Por que isso importa

Os preços ao produtor são um indicador antecedente da inflação, refletindo pressões de custo antes de os bens chegarem ao consumidor.

A continuidade da queda do IPP do Brasil sugere que as pressões inflacionárias a montante permanecem contidas, o que pode ajudar a moderar as tendências gerais de preços na economia.

No entanto, o desempenho desigual entre setores—particularmente a resiliência em máquinas e metais—aponta para volatilidade em curso, impulsionada por custos de insumos e dinâmicas de commodities globais.

No geral, o setor industrial brasileiro permanece sob pressão deflacionária, liderada por alimentos e indústrias ligadas à energia, ainda que bolsões de força atrelados à demanda global continuem a emergir.