A cicatriz da inflação na Europa voltou e está mudando o comportamento das pessoas

A cicatriz da inflação na Europa voltou e está mudando o comportamento das pessoas
Invezz Team
07 de abr. de 2026, 02:20 AM
  • O BCE deve agir rapidamente se o choque energético do Irã elevar ainda mais a inflação.
  • A lembrança da guerra na Ucrânia pode acelerar, desta vez, a espiral entre salários e preços.
  • Os mercados precificam dois aumentos das taxas do BCE em 2026, o primeiro previsto para junho.

As expectativas de inflação na zona do euro correm o risco de subir mais rapidamente do que no passado, e o Banco Central Europeu deve estar preparado para apertar a política com rapidez se surgirem sinais de pressão persistente sobre os preços, disse o membro do Conselho do BCE Dimitar Radev.

O alerta ocorre numa altura em que o salto nos custos de energia provocado pela guerra no Irã empurrou a inflação bem acima da meta de 2% do BCE, provocando um debate crescente entre os formuladores de políticas sobre agir antes que preços mais altos se cristalizem na economia em geral.

O balanço de riscos mudou

"O balanço de riscos mudou em direção desfavorável", disse Radev, que dirige o banco central da Bulgária e é um dos mais recentes membros do Conselho do BCE, à Reuters numa entrevista em Sófia.

"A probabilidade de um cenário mais adverso aumentou, especialmente em face do choque de energia e do elevado nível de incerteza."

Radev referia‑se aos três cenários econômicos — adverso, base e severo — publicados pelo BCE no mês passado.

Embora o cenário base continue sendo o caso central, disse que a probabilidade do percurso adverso aumentou materialmente.

A lembrança da inflação passada pode acelerar as expectativas

Uma preocupação central é que consumidores e empresas, que vivenciaram preços descontrolados há apenas quatro anos após a invasão da Ucrânia pela Rússia, possam ajustar suas expectativas rapidamente — exigindo salários e preços mais altos e desencadeando uma espiral inflacionária auto‑reforçadora que seria dispendiosa para ser revertida.

"Os desenvolvimentos recentes da inflação parecem ter aumentado a reatividade das expectativas, o que significa que o repasse de novos choques pode ocorrer mais rapidamente do que em condições normais", disse Radev.

Seus comentários ecoam os de vários outros responsáveis do BCE que se abstiveram de pedir explicitamente aumentos de juros, mas sinalizaram que o banco deve estar pronto para agir.

Ainda não há efeitos de segunda rodada, mas a fragilidade persiste

Por enquanto, as expectativas de inflação permanecem ancoradas na meta do BCE e os efeitos de segunda rodada ainda não são visíveis nos dados.

A leitura da inflação de março mostrou um forte salto nos preços de energia, mas sugeriu que as pressões sobre os preços de serviços estavam diminuindo.

No entanto, Radev advertiu que o BCE não pode dar como certo um desfecho benigno num ambiente tão frágil e de rápida evolução.

"Se o choque persistir e começar a afetar salários, margens e expectativas, o custo da inação aumentaria", disse ele.

"Nessa situação, agir em tempo hábil seria a opção mais prudente."

Reunião de abril e o que o BCE está monitorando

Os mercados financeiros precificaram mais de dois aumentos de juros do BCE este ano, com o primeiro esperado para junho.

Radev disse que é cedo para afirmar se dados suficientes estarão disponíveis até a reunião de 30 de abril para justificar uma decisão sobre a taxa, mas acrescentou que haveria informação suficiente à mão para permitir uma discussão de política mais concreta e estruturada.

O BCE prestará atenção particular a medidas das expectativas de inflação, aos números subjacentes dos preços, a indicadores de sentimento, à evolução dos preços da energia e — acima de tudo — a sinais sobre a duração da guerra no Irã e suas consequências econômicas.

Radev também assinalou o risco de que programas de subsídio governamentais, se introduzidos para proteger os consumidores dos custos de energia, possam adicionar combustível às pressões inflacionárias em vez de atenuá‑las.

A posição inicial da zona do euro é mais favorável do que em 2022, observou ele, dado que as taxas de juros já estão em nível mais elevado e as expectativas continuam ancoradas — mas a margem para complacência é estreita.